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QUANDO O OPORTUNISMO FAZ ESCOLA


Publicado em 08 de junho de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Vânia Azevedo
Após estacionar o carro em um shopping da cidade, atravessei o estacionamento observando a suntuosidade do inovador mercado automobilístico (cada vez mais abastecido de marcas estrangeiras) enquanto sonhava com o meu preferido. Contudo, o elemento que deteve a minha atenção não foi um automóvel, mas o inoportuno condutor de um carro de alto valor: sujeito jovem e bem-apessoado, cuja conduta oportunista e inadequada disparou o meu alerta despertando a minha indignação ao vê-lo estacionar numa vaga destinada a idosos. Ao perceber que estava sendo observado, os nossos olhares colidiram, e, intuitivamente, o indivíduo foi instado a testemunhar a expressão de reprovação que se desenhava na minha face, respondendo com um olhar de indiferença e desdém.
Infelizmente a atitude que presenciei não se trata de um fato inusitado. A prática reiterada desse ato segue mesclada ao tecido social, devidamente associada à inconsequente desfaçatez caracterizada pelo oportunismo daqueles que insistem em criar suas próprias regras – condição inaceitável para uma coexistência sustentável. E enquanto buscava digerir o episódio,isso me fez pensar que a atitude do sujeito em questão denota um comportamento antagônico ao que o filósofo francês Augusto Comte conceituou de altruísmo, o nobre sentimento tão em desuso nossos dias. E assim segui analisando a natureza da situação que envolve parte de um corpo social (cujo oportunismo dispensa estrato), para encontrar ressonância nas palavras de Gornick – “o mundo passa a ser um lugar bárbaro, sem a menor esperança de terna consideração” – como resposta mais condizente ao fato em questão.
Todavia, isso me leva a crer que Indivíduos com esse perfil – onde a filáucia domina os seus instintos – seguem considerando que o “levar vantagem” é sinônimo de esperteza. No entanto tudo não passa de patente exiguidade de empatia – que se caracteriza pela incapacidade de o indivíduo lidar com a necessidade de outrem; ou a negação em se colocar no lugar do outro para melhor compreender uma conjuntura -, perpetrando o individualismo à sua zona de conforto.
No entanto, o que torna o fato mais deprimente ainda é que esse indivíduo (ao descer do carro e se dirigir para abrir a porta contrária) demonstrou o seu despreparo para se tornar referência para alguém – muito menos para a menina que o chamou de “papai”. O fato mais lamentável é que esse cidadão não só atenta contra a lei e a ordem, mas oferece à filha uma dessas cenas que a princípio parece não ter consequências, mas reflete a reprodução negativa de comportamentos disseminados por pais que contribuem para uma educação equivocada.
Outrossim, cenas assim dão prova do universo degradante daqueles que apostam em atitudes nefastas, indiferentes a tudo que não lhes agrada. São comportamentos vistos sob lentes distintas, mas que podem ser entendidos como indiferença, onde ,conforme Jean-Paul Sarte, o indivíduo se refugia para evitar responsabilidade por suas escolhas. No caso em questão, prefere ignorar o fato de que o benefício pró-idoso existe e deve ser respeitado.
Do ponto de vista legal a vaga é uma determinação prevista na leinº10.741de 01 de outubro de 2003que dispõe sobre o Estatuto do Idoso, que prevê uma reserva de 5% (cinco por cento) das vagas em estacionamentos públicos e privados aos maiores de 60 anos.”Nesse sentido, o CTB (Código de Trânsito Brasileiro) prevê punição para esse infrator ao estacionar em vagas reservadas ao idoso (sem ter 60 anos ou mais e sem o cartão de estacionamento disponibilizado pelo órgão de trânsito). O fato se constitui infração gravíssima com inclusão de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) do condutor e imediata remoção do veículo. Vale ressaltar que mesmo em estacionamentos privados, como shoppings e supermercados, autoridades de trânsito podem entrar para multar infratores que estão utilizando a vaga sem os cartões correspondentes à sua exclusividade. No entanto, não lembro de jamais ter visto uma autoridade de trânsito fiscalizando qualquer estacionamento com o objetivo de coibir esse tipo de infração. E mesmo quando tentei estabelecer esse contato para denunciar alguém, infelizmente não tive sucesso – talvez por acharem que a tarefa não tenha a relevância que julguem necessária.
As vagas especiais são um direito dos idosos, deficientes e gestantes nos estacionamentos públicos, sendo que cada categoria possui uma legislação diferente, ficando estabelecido que o uso da vaga está restrito a cada categoria segundo identificação fixada.
Nesse sentido, classifico como inaceitável o papel da sociedade em se omitir e não denunciar, e assim estimular o referido comportamento dos oportunistas de plantão. Positivar o hábito de denunciar esses indivíduos é contribuir para que as leis sejam legitimadas e os direitos humanos preservados, principalmente quando se trata de pessoas idosas convivendo com limitações físicas imanentes à senilidade.
Por fim, ainda que as leis contenham em suas entrelinhas requisitos latentes, por si só não garantem a ordem e a plena execução. Na realidade tudo se resume em dois fatores que considero determinantes para a viabilidade da vida em sociedade: respeito à individualidade; e respeito aos direitos concernentes àqueles que integram a sociedade da qual fazemos parte. E vou além: basta se perguntar que tipo de atitude você gostaria que alguém tivesse com os seus idosos, ou com você mesmo caso se visse em situação semelhante, para ter uma atitude mais humanitária com o próximo.
Para além disso o mundo não é um lugar fácil, mas nele há lugar para todos: do leão às gaivotas. Para vivermos numa condição social de amplitude cultural, precisamos preparar as nossas crianças para que a decência e a essência do respeito habite em cada uma delas, garantindo-lhes viver com dignidade e empatia. E, quem sabe, um dia elas possam educar os seus pais.
* Vânia Azevedo é professora
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