Que a humanidade nunca morra

* Paulo Franklin

Cláudio Rafael Landeiro era seu nome. Carioca, tinha 37 anos e gostava de andar de bicicleta. Desempregado, sofreu um acidente ainda jovem, situação que, segundo a família, comprometeu sua fala, tornando-o mais calado e reservado. Era noite de 11 de agosto, dia do advogado e do estudante. Cláudio saiu para pedalar e não retornou para casa, pois foi confundido com um ladrão, cercado, espancado e deixado agonizando na calçada fria de Copacabana. No hospital, a morte veio rápido. Cláudio teve uma parada cardíaca e não resistiu.
Cláudio não era ladrão. A bicicleta velha, enferrujada e com pneus carecas era da irmã dele. Alguém perguntou se a bicicleta era dele. Cláudio, que tinha dificuldade para se expressar desde o acidente, respondeu apenas que não, quando deveria ter dito que a bicicleta era da irmã. Ninguém esperou pelo restante da frase. Aquele “não” mal explicado bastou para virar sentença.
Cercado por dois “seguranças” e dois entregadores de aplicativo, o homem de 37 anos que saiu de casa e não voltou foi vítima de pessoas que decidiram que ele merecia a morte, não por ter cometido um crime, mas por uma suspeita. E isso, caro leitor, não pode ser normalizado.
O poder punitivo, que pertence ao Estado, não pode jamais ser exercido por particulares, muito menos por “seguranças” de rua e entregadores que fazem o papel de juízes, promotores e carrascos. Como bem lembrou o delegado Ângelo Lages, que atua nas investigações, a segurança privada só pode atuar dentro de propriedades particulares, jamais nas vias públicas. E há ainda um detalhe que deveria ser óbvio: a ética nos ensina que ninguém tem o direito de julgar, condenar e executar outro ser humano
Mesmo que a bicicleta tivesse sido roubada, e não era, a pena de furto no Brasil não é e nunca foi o espancamento até a morte. Mas o que aconteceu com Cláudio não foi apenas uma falha jurídica. Foi também uma falha de escuta. Existe uma violência que antecede a violência física: a de deixar de perguntar porque já se decidiu a resposta. Foi isso que aconteceu naquela rua. Ninguém quis ouvir o resto do que Cláudio tentava dizer. Muito me preocupa viver em uma sociedade que tira conclusões com base em julgamentos apressados.
As redes sociais intensificam cada vez mais o discurso de “cada um por si” ou, pior, “bandido bom é bandido morto”. A ideia de fazer justiça com as próprias mãos alimenta um terreno perigoso, em que as suspeitas podem rapidamente se transformar em sentenças sumárias. O discurso de Jesus era totalmente diferente. Ele ensinava: “Não julgueis, para não serdes julgados” (Mateus 7,1). E foi além: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (João 8,7).
O Mestre do Amor não ensinou a olhar para o erro do outro com um dedo no gatilho, mas a examinar a própria vida antes de apontar o dedo. Para Jesus, o homem não é dono do julgamento e deve desejar sempre o bem do próximo: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles” (Mateus 7,12). Bastava alguém ali ter se perguntado o que gostaria que fizessem por ele.
Fico me perguntando o que se passou na cabeça de Cláudio naquela noite. O que ele gostaria que tivessem feito por ele, mas não conseguiu colocar em palavras? Certamente ele não queria muito. Queria ser ouvido, que alguém duvidasse da acusação, que alguém o visse como humano. Ele não reagiu. Não ofereceu resistência. Segundo o depoimento de um dos agressores, Cláudio obedeceu às ordens e não pediu socorro. Talvez não pudesse. Talvez não tivesse voz. Talvez, para quem o agredia, ele já tivesse deixado de ser humano, justamente por não conseguir se explicar. Creio piamente que a justiça não se faz com injustiças. A violência não se resolve com mais violência. Se o Estado falha em punir quem comete delitos, isso não autoriza a sociedade a agir como justiceira, como se a força pudesse ser a única resposta.
A polícia apurou que várias pessoas ficaram na calçada vendo Cláudio agonizar, sem que ninguém lhe estendesse a mão. Ninguém chamou uma ambulância. Ninguém viu naquele homem caído um samaritano ferido, um irmão. Com os olhos marejados, escrevo este texto e não à toa escolhi como título: “Que a humanidade nunca morra”. A humanidade aqui tem dois sentidos. Primeiro, saber o que nos torna humanos: a compaixão, a capacidade de ver o outro, o exercício da justiça que não mata, a força para dizer “isso não é justo” mesmo quando todos gritam “isso é justo”. Segundo, a humanidade enquanto espécie, o planeta que habitamos e a qualidade de vida que estamos deixando para nossos filhos e netos. Quando a humanidade sangra num corpo, todo o planeta sente a dor.
Que Cláudio Rafael Landeiro não seja apenas mais um número. Que ele seja o que nos faz lembrar que, antes de qualquer suspeita, há uma pessoa. E que essa pessoa, sempre, merece ser vista, ouvida e amparada. Que a humanidade nunca morra, nem no outro, nem em nós.

* Paulo Franklin é professor, escritor, psicanalista e advogado atuante em Estância/SE. Instagram: @paulofranklin

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