Fábio Alessandro Rolemberg Silva
Sim, já ocupamos alguns postos importantes na sociedade, somos médicos, advogados, engenheiros, profissões que antes eram da elite. Estamos nas universidades, mesmo ouvindo comentários de desmerecimento por termos vindo das cotas. Hoje, até a grande mídia abriu espaço com merchants atribuindo a isso a inclusão racial. Já nos vimos como juízes nos tribunais das superiores cortes. Até mesmo como maior dirigente no país de maior potência.
Mas será mesmo que tudo mudou? Devemos desconsiderar tudo que aconteceu até aqui? Ou devemos olhar para o lado e perceber que ainda não temos voz nos espaços de poder?
Enquanto nação somos a maioria, e em contraposição somos os menos favorecidos, somos a maior parte da ocupação dos presídios, vivemos nas favelas, estamos nos sinais de trânsito, pedindo esmola e ouvindo que vamos usar os centavos para comprar drogas, como se fosse possível viver sóbrio o tempo todo na nossa realidade.
E que democracia é essa? A democracia propagada e voltada só para alguns. Em que a família tão valorizada é a dos poderosos, consolidadas pelo nepotismo dos melhores cargos. Em que a religião a ser considerada são as dos nobres, pois a nossa é marginalizada.
E as nossas referências? Passamos a defender os nossos algozes, defendemos aqueles que trabalham para diminuir a nossa importância, que potencializam a nossa miséria e tiram a nossa dignidade.
Deixamos de valorizar os nossos heróis, Zumbi dos Palmares, Malcom X, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus, Benedita da Silva, entre outros. Agora, por incrível que pareça, ouço alguns de nós defendendo um ‘MITO’, alguém que representa a não esperança, a destruição do meio ambiente, o Fascismo, que faz apologia às armas que serão usadas contra nós, que não valoriza a educação, a cultura, a ciência, que de forma exacerbada prima pelo fisiologismo em prol dos seus interesses.
E eu, que fui formado ouvindo o Charlie Brown, que entendi os meus primeiros erros com o Capital, que descobri as mazelas da vida através do Mano Brown. Que vivenciei a paz com Bob Marley, que caí na gandaia com Gilberto Gil, não posso admitir que estejamos longe dos nossos sonhos, do que entendemos sobre o amor, e não me senti genuinamente inserido dentro de uma conquista social.
Fábio Alessandro Rolemberg Silva, doutor em Física, é professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe.


