Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
Durante boa parte de minha formação acadêmica, concentrei meus esforços de pesquisa histórica entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Hoje, há pelos menos dez anos, estou mais para o tempo presente e para a história oral, sobretudo quando tenho me debruçado sobre as memórias do carnaval trieletrizado, sobre a história da Igreja Católica e sobre as trajetórias de vida de pessoas de diversas áreas, da educação à medicina, como foi o caso do ensaio biográfico de Dr. Hugo Gurgel, que publiquei em parceria com Ana Medina no início deste ano.
O fato é que lidar com esse período da história que chamamos de oitocentista (século XIX) não é uma tarefa fácil. Requer do pesquisador um esforço metodológico ainda mais meticuloso e dedicado. Uma das fontes principais, além dos impressos, claro, são os manuscritos, que exigem algo mais além de ler e codificar um tipo de escrita, mas também a compreensão e a tradução de um contexto de produção e uma semântica própria do tempo.
Nesse sentido, quero parabenizar a iniciativa dos meus colegas do Departamento de História (DHI) da Universidade Federal de Sergipe, Prof. Dr. Carlos de Oliveira Malaquias e Profª. Dra. Edna Maria Matos Antonio, pela organização e lançamento do livro “Revisitando Sergipe Oitocentista – Fontes Históricas e Novos Temas de Pesquisa”, pela Editora SEDUC, 2022.
Professores da nova safra de docentes do DHI, Malaquias e Edna têm muito em comum. Destaco, em especial, dois aspectos: 1) são profissionais altamente capacitados e comprometidos com o ensino de história, com a pesquisa histórica e com a extensão; – um parêntese para Edna, a qual tive a oportunidade de trabalhar, quando dos tempos áureos do Curso de Licenciatura em História da Faculdade José Augusto Vieira (Lagarto-SE), entre os anos 2004 e 2008; 2) não são nascidos em Sergipe (ele, em Curvelo, Minas, ela, em São Paulo), mas que abraçaram o fazer historiográfico a história e cultura sergipanas com afinco e com dedicação. Edna, inclusive, é autora da tese (versão também em livro) intitulada “A independência do solo que habitamos? Poder, autonomia e culturas políticas na construção do Império Brasileiro. Sergipe (1750-1831)”, defendida na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (SP), em 2011.
Carlos Malaquias se especializou em história do trabalho escravista no Brasil, entre os séculos XVIII e XIX, e, por quatro anos esteve à frente da Chefia e Coordenação do Departamento de História da UFS. Tem desenvolvido inúmeras ações, que têm colaborado para dinamizar nosso quinhão de conhecimento histórico, orientando promissoras e qualificadas pesquisas, tanto ao nível de graduação, quanto ao nível de mestrado.
Pois bem. Em “Revisitando Sergipe Oitocentista”, destaque para seus cinco capítulos: “Poder Provincial e construção da Nação: Presidentes da Província de Sergipe no Primeiro Reinado (Edna Maria); “Relações comerciais entre Estância e Salvador: redes de abastecimento e importância do crédito no século XIX (Fernanda Carolina Pereira dos Santos, Mestre em História pela UFS, 2022, orientada por Malaquias); “Mulher de posses, senhoras de si: poder, autoridade e condição feminina na sociedade agrária-escravista de Sergipe, no século XIX” (Nathiely Feitosa Farias, Licenciada em História pela UFS, pesquisadora COPES sob a supervisão de Carlos Malaquias); “Doenças no Sergipe Oitocentista: pesquisa e ensino de história” (Bárbara Barbosa dos Santos, Graduada e Mestra em História pela UFS, sob a orientação de Carlos Malaquias, e Doutoranda em História pelo Programa de História das Ciências e Saúde, da Casa de Oswaldo Cruz-RJ); e “A influência da Igreja Católica nas última vontades dos sancristovenses no século XIX” (Márcia Oliveira Gama, Licenciada em História pela UNIT e Mestra em História pela UFS, 2019, também, sob a orientação de Carlos Malaquias).
Além de se apresentar como uma importante referência para os estudos e para a compreensão da história oitocentista de Sergipe, a obra referenda, mais uma vez, a importância não somente do Curso de Licenciatura em História nos últimos anos, mas também de seu Mestrado, hoje sob a coordenação do Prof. Dr. Augusto da Silva, principalmente no que diz respeito à formação de uma nova e robusta historiografia sergipana, que ainda tem muito caldo para dar, pelo menos, pelos próximos cinquenta anos.


