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Românticos de Cuba


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Publicado em 15 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


Cuba e seus encantos: Capitólio em Havana, Casa de Trova e Bicitáxi
 
* Luciano Correia 
 
Fui a Cuba pelo prazer do lugar, das suas gentes, sua música maravilhosa e a luz especial que brilha em toda a ilha. Da primeira vez, a estudo; da segunda, a trabalho, e dessa vez a passeio. Pernas então pra que te quero, se estamos de férias? Assim, equilibramos visitas a museus, parques e locais históricos com a velha e boa vida mundana, leia-se: rum, charuto, música e boas conversas. Como a excursão percorreu boa parte do país, gastamos um bom tempo também em longas viagens de ônibus, o que, para mim, é uma delícia. Sempre gostei de viajar de carro, olhando a paisagem e parando para comprar iguarias do local. Isso, quando vou a Caruaru, Campina Grande ou Itaparica. Em Cuba, não há muitas iguarias nas paragens. Mas Deus existe nos detalhes, não é? Entre Camaguey e Santiago de Cuba há um ponto de parada para comida que, acreditem, não havia água mineral para eu cumprir minha meta matinal recomendada por médicos e pelo mundo todo (no turno vespertino eu tenho acerto com outras religiões). Na falta de água… havia um chope no caminho. Isso mesmo: uma bruta caneca de 500 ml do melhor chope do mundo, a módicos 200 pesos, algo como quatro modestos reais.
Mas a viagem só se faz completa com seus personagens. E, nesse caso, foram muitos. Figuras que, além de terem cruzado nossa vida numa situação especial, de acolhimento, parceria ou em encontros fortuitos, iluminaram um pouco nossa passagem pelo país, com fortes indícios de que se tornarão amigos para sempre. Começando por Havana, no apartamento onde fiquei com o amigo aracajuano Ricardo Nunes, sob as graças e a guarda do simpaticíssimo casal Tony-Irma. Ele, professor de História das graduações e mestrados da Universidade de Havana; ela, uma dona de casa muito culta e antenada com as coisas do mundo.
A casa do casal, a menos de 500 metros do Capitólio, tomamos o melhor café de toda a Cuba, aliás, um desayuno completo, com especialidades preparadas com esmero e carinho pelos dois. Em Trinidad, dando uma última banda pelas ruas para tomar uma saideira, dei de cara, literalmente, com a ruiva Yoanei, uma bailarina que se apresenta com um grupo de dança cubana em hotéis e pontos turísticos pelas principais cidades. Vinha ela por uma rua e este pobre rapaz sedento de cerveja pela outra, quando quase trombamos nossas ventas no encontro das ruas. “Que pasa chica, donde vas asi demasiado apurada?” A muchacha: “para aquela festa ali”, e apontou uma escadaria onde, no alto, um show maravilhoso da melhor música cubana acontecia num palco iluminado. Foi minha primeira grande aula de salsa, com cerveja e charutos até a madrugada.
Na mesma Trinidad, na manhã seguinte, topei com outra diaba em forma de gente, a morena Liany, funcionária de uma lojinha de guayaberas e souvenirs. Usava um vestidinho florido, tão belo quanto curto, que fez a festa dos olhos de quem nesta manhã pousou na modesta lojinha. À noite, novamente em busca da última cerveja, meus solitários pés e o infalível Deus do Acaso me fizeram encontrar com a guapa morena na rua principal da cidade. De novo, música e mojitos dentro da noite veloz.
De Trinidad a Santiago, longa marcha, fizemos uma parada em Cienfuegos, cidade elegante, bem conservada, com belos edifícios. Como o país está em regime de contenção total de energia, a recepção foi à luz da lua nova, ou seja, no breu da noite. Nem deu tempo de conhecer gente local. Foi parada técnica com jantar e retirada na manhã seguinte. Santiago de Cuba. Jamais imaginei que esta cidade me reservava tantas surpresas agradáveis, com uma arquitetura imponente e bem cuidada, falando a linguagem das cidades internacionais, sempre visitadas por turistas. Aqui no Brasil, é raro, raríssimo. São poucas as cidades que recebem turistas estrangeiros. não que ter estrangeiros nas ruas seja puramente um indicador, mas para a economia, sim.
Em Santiago, a porta de entrada para me apaixonar pelos seus encantos foi a música, nas ruas ou casas de espetáculos. Ali, na Casa da Trova, conheci a serelepe Alina, uma negra de 55 anos, um foguete dançando os ritmos locais, alegre como uma criança, pobre como um franciscano (os de antigamente, se me entendem). De dia, andando à toa pelas calles, um amigo que me acompanhava foi vítima de uma daquelas ciladas cruéis que apronta o destino, digo o intestino. Vendo sua cor ganhar um tom de amarelo-verde, fruto da agonia das tripas em plena revolução, fui pedir ajuda justamente na casa de… Alina. Santa coincidência, numa cidade de mais de 600 mil habitantes. Fiquei comovido com o estoicismo de uma moça com quase 60 anos, vivendo numa espécie de casebre, mas celebrando a vida todas as noites em seus vestidos brilhantes na pista da Casa da Trova. Alina foi um dos destinatários das dezenas de presentes humanitários que levei numa mala à parte. Foi uma alegria poder vê-la contente com meus agrados. Sim, o buraco nos fundos da casinha que servia de banheiro à família de Alina foi mais que suficiente para resolver todos os problemas do meu apertado amigo.
Na Casa da Trova também conheci outra exímia bailarina, Daniela, filha de pais médicos que atualmente vivem no Rio de Janeiro. Negra bela e fogosa, Dani é um sucesso na pista e no coração dos frequentadores da noite santiagueira. Outra personagem marcante foi a proprietária da casa onde ficamos, Yolanda, mulata muito parecida com Omara Portuondo, também apreciadora de boleros mortíferos, que interpreta num timbre forte e dramático. Despachada e escrachada, foi logo avisando a mim e ao Ricardo assim que baixamos as malas na sua varanda: “Não dou a chave da casa a homens, porque eles perdem por aí, por cachaça ou pelas putas. Outra coisa: mulheres aqui, não! Se arranjarem alguma pela rua, fiquem por lá mesmo.” No dia seguinte eu brinquei: “Yolanda, vou precisar de uma chave. É que eu conheci umas meninas ontem na calle Boulevard”. Yolanda quase me expulsa quarto à fora.
De volta a Havana, conheci Javier, dono de uma bicitáxi que me levou para um périplo por lojas estatais de charutos, cigarros e rum. Já avô, não exibia cansaço em conduzir seu meio de transporte e de vida pelas ruas de Centro Habana, desviando de gente, carros e outras bikes com uma maestria chapliniana, sempre com uma boa história pra contar. Na despedida, quando paguei a conta e deixei com ele um par de sapatos de couro de carneiro e algumas de minhas camisas floridas Made in Toritama, abriu um gigantesco sorriso com a boca escancarada cheia de dentes.
Numa amena noite de domingo, peguei um táxi para a Fábrica de Arte, um diversificado centro cultural no bairro de Vedado, com salas de teatro, cinema, música, exposições e gente circulando e praticando o universal esporte do levantamento de copos. Ali conheci também María, atleta de basquetebol, segundo ela, da seleção cubana. Tímida, simpática e muito bonita, me levou por várias salas da Fábrica, contando coisas de sua vida, de amigos e parentes e da vida de esportista pelo mundo. Nos despedimos horas depois nas imediações do Capitólio, com a promessa de cerveza-e-rum na manhã seguinte, jamais cumprida graças a uma última olhada que fui dar no velho e querido Hotel Nacional, jóia da cultura, história e arquitetura cubanas que me abrigou por três meses em 1989. Os cubanos dizem sempre: “asi es”. E esse tio, modestamente declara: assim foi!
 
* Luciano Correia, jornalista e presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju).
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