* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
Conforme anunciei no artigo publicado na edição de 4 de fevereiro último, um dos objetivos que defini para esta coluna de opinião neste ano foi, vez por outra, partilhar com os caros leitores que nos acompanham há tantos anos, textos que, tendo lido, achar válido divulgar, numa época em que as pessoas, de modo quase geral, estão "perdendo" o interesse pelo saudável hábito da leitura.
Assim, o nosso "convidado" de hoje é Dom Orani João Tempesta, O.Cist., Cardeal Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, que nos apresenta uma reflexão sobre o "Tempo da Quaresma".
Vejamos o que nos escreve Dom Orani:
– "Se ainda não consegues, diante do rosto de Cristo, deixar-te curar e transformar, então penetra nas entranhas do Senhor, entra nas suas chagas, porque é nelas que tem a sua sede a misericórdia divina" (Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, n.º 15).
A belíssima imagem que o Papa Francisco nos apresenta nesse trecho da Gaudete et Exsultate é tirada do Sermão sobre o Cântico dos Cânticos, n.º 61, de São Bernardo, e tem rica profundidade mística, da qual surgiu a devoção às Cinco Chagas de Cristo. Outros autores místicos, como também o próprio papa, refletiram sobre esse tema em diversas ocasiões.
A contemplação da Sagrada Face de Cristo, desfigurada pelas torturas que ele sofreu, também é devoção muito difundida na Igreja. Tem sua origem na figura que teria ficado impressa no lenço usado por Verônica para enxugar o rosto do Senhor, enquanto ele subia ao Calvário.
No texto que destacamos para esta reflexão, o papa recorda as duas devoções – à Sagrada Face e às Cinco Chagas de Cristo -, muito praticadas durante o tempo da Quaresma, como auxílios para chegarmos à conversão. Francisco aborda esse dinamismo da vida espiritual com uma reflexão que ele sempre gosta de enfatizar: a conversão exige de nós uma resposta generosa ao chamado de Deus, mas, ao mesmo tempo, é impossível ser obtida apenas com nossas próprias forças.
Por isso, se a contemplação da Paixão de Cristo nem sempre nos leva à conversão, podemos ter uma experiência mais concreta daquele ato supremo de amor por meio de um "mergulho" nas chagas dele. Assim, encontraremos no sofrimento daquele que assumiu todas as chagas da humanidade a resposta e a cura para nossas próprias dores, angústias e pecados. Eis o tempo favorável do reavivamento batismal que deve ter como consequência a nossa vida de busca de santidade.
Nas chagas de Cristo, a misericórdia divina tem sua sede, sua habitação mais plena. Penetrar nelas não significa um mergulho masoquista no sofrimento, mas corajosa entrega à misericórdia que nos acolhe, perdoa e transforma, para que nos tornemos, pela graça de Deus, quem ele quer que sejamos.
* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br


