* Andrei Albuquerque
De nada adiantaria extrair um inconsciente a fórceps, pois convém que a pessoa esteja determinada a enfrentar as suas paixões, inclusive uma das mais renitentes, a ignorância. No entanto, não se prega que todos os caminhantes analíticos estejam determinados a trabalhar as suas fantasias mais fundamentais sobre si e o seu Outro, a depender se almeja somente uma melhor digestão das inibições que impedem uma boa sesta.
Um suposto inconsciente extraído a fórceps seria um bebê reborn produzido pelas mãos dos charlatães, portanto, um objeto forjado.
Na medida em que o preconceito, inclusive de alguns analistas, perdeu terreno ficou mais evidente que não se precisava de uma condição intelectual mínima para se embarcar em uma análise. Assim, o psicanalista pode oferecer a sua escuta nos consultórios e praças, proporcionando uma transformação, que não é obrigatória, a pessoas diversas: de um filósofo-escritor francês libertino e subversivo como Georges Bataille – que afirmou ter sido curado de loucuras maiores por meio de sua análise pessoal – até qualquer sofredor.
Sofrer menos com os seus fantasmas pode ser transformador trazendo alguma leveza e também alguma rebeldia. Rebeldia que faria um corte na relação com os ideais enrijecidos que o sujeito crê que precisa sustentar, um descolamento dos discursos que circulam reduzindo a experiência, os caminhos e descaminhos a algumas palavras. Ninguém se reduz a uma identidade, a um semblante (uma aparência) e a um ato que embora tenham a sua importância a depender crucial para o sujeito, porém não toda. Se a identidade ancora o sujeito também pode interromper a sua navegação.
O exercício de uma escuta psicanalítica leva o analista a considerar um diagnóstico – que o andarilho analítico costuma portar como antigamente os homens levavam as suas capangas sob os braços (até compartimento para um revólver tinha nessa bolsa masculina) – como uma casca que não revela tudo o que há por dentro, tem casca vistosa diferente do conteúdo apodrecido. E as capangas sumiram, saíram de moda. Assim, o analista não acredita que um diagnóstico possa dar conta da sensação de descompasso que uma pessoa tenha diante do que não entende em si, pois a psicanálise trabalha a existência de um estranho que habita o psiquismo e o determina como uma marca que se repete – uma espécie de eminência parda que não apenas atua sorrateiramente sobre o comportamento dos sujeitos, às vezes transborda como água em inundação.
Por exemplo, o lugar que a comida pode ocupar na história de alguém desde a recusa alimentar a um compulsivo apetite pantagruélico haveria uma marca estranha que pode levar a um incômodo questionamento sobre como cada um absorveu a relação com os pais (quem ocupou essa função), a história familiar e os sulcos que deixaram em seu ser. Sulcos, marcas, que afetam também as escolhas amorosas e o lugar que o sujeito ocupa em seu mundo.
Por isso, um inconsciente extraído a fórceps, obrado por paladinos de uma positividade tóxica e utilitarista no campo da “saúde mental”, seria traduzido em interpretações genéricas que excluiriam a singularidade de cada um e de como o sofrimento se articula em uma história pessoal sem esquecer o contexto social de uma sociedade capitalista e de exploração excessiva do trabalho. Então, uma saída pode ser o sujeito se revoltar contra a sua prisão às demandas alheias e diante do que supõe que o Outro familiar e social espera dele. Como escreveu a escritora sergipana Alina Paim em seu livro “A sombra do patriarca” (1949): “A revolta é como uma luz que de repente se acendesse nas trevas. Quem vê essa chama enxerga o caminho, não precisa mais de guias.”
Por meio da transformação do sofrimento em uma rebeldia alegre, que ri dos semblantes, a análise pode levar a uma queda ou redução de ideais rígidos e a outra perspectiva diante da vida. O livro descreve a opressão de um usineiro sobre a família e os trabalhadores que habitam o seu feudo nordestino na década de 30 do século passado. O patriarca seria um lugar discursivo de imposição de uma ordem massificante sem espaço para a diferença, para o desejo, e que determinaria os destinos e os corpos, sobretudo os das mulheres l, que irão se rebelar contra o patriarca. E as mulheres conseguem questionar o mestre e humanizar o homem.
O autoritarismo tem as suas sombras, pois todo discurso as tem e o inconsciente é um rebelde que resiste a ser forçado, todavia sempre insiste com as suas marcas.
* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou livros, artigos e textos em jornais.


