Rian Santos
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Sou um homem doente. A obrigação profissional de me manter sempre bem-informado ataca-me o fígado com toda a força, feito um soco bem dado.
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Após merecidas férias, a minha disposição deveria ser outra. Mas os dias dedicados a sol e mar, o “dolce far nient”, foram contaminados pela crise da hora atual – para citar o crítico Frederico Morais. Na praia, na fila do pão, ao deixar as crianças na escola, o noticiário me alcança, mesmo enquanto leio um poema de Bocaccio.
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Cultivo rituais. Pulo da cama ao primeiro sinal de claridade e passo o café embalado pelos Noturnos de Chopin. Em minha casa, a serenidade grave do piano silencia os rumores do mundo.
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Há barulho, no entanto. Eu bebia cerveja quando um amigo convidou Emília Corrêa para sentar à mesa, por assim dizer. Segundo ele, a prefeita de Aracaju interrompeu os afazeres administrativos para naturalizar as tentações golpistas do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Eu tive de conferir. Tudo o que foi trazido à tona pelas investigações da Polícia Federal, a prefeita defende em post inoportuno, nas inoportunas redes sociais, restaria maculado por sanha persecutória, um ímpeto atribuído pelos bolsonaristas, como ela, ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
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Mais um pouco, Emília enfeita a cabeça com o boné de Trump, à revelia da soberania tupiniquim, em prejuízo da economia pátria. Hoje, renovar a adesão ao bolsonarismo equivale a chancelar um plano assassino, um projeto de poder autoritário e totalitário, aderir à vassalagem. Emília, entretanto, o faz.
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Contrários ao bom senso, os fatos me adoecem. Eleita nas urnas, em consulta popular e democrática, Emília estende os braços num revelador gesto de solidariedade aos pervertidos do golpe.


