Voluntarismo

Mais das vezes, o confronto reproduz a ultrapassada lógica segundo a qual bandido bom é bandido morto

Um episódio exemplar, ambientado no Centro de Aracaju, dá nova mostra dos riscos inerentes à licença para matar, reivindicada por parte das forças policiais a postos nas grandes cidades brasileiras. Mais das vezes, o confronto reproduz a ultrapassada lógica segundo a qual bandido bom é bandido morto.
O caso não deixa margem para dúvidas: Armado de uma faca, um meliante tenta assaltar uma clínica, sem sucesso. Ao ser abordada, a proprietária do estabelecimento grita por socorro. Ato contínuo, um policial militar da reserva persegue o suspeito, arma em punho. À distância, já sem oferecer perigo imediato, o marginal é alvejado e cai morto. Segundo a PM, o policial da reserva está disposto a comparecer à delegacia para prestar esclarecimentos, espontaneamente. Apesar da reação desproporcional, perfeitamente contornável, a história tende a morrer por aí.
Ao menos 3.148 pessoas foram mortas por policiais brasileiros no primeiro semestre do ano passado. O número é 7% mais alto do que o registrado no mesmo período do ano anterior, quando foram contabilizadas 2.934 mortes. Isso, apesar do distanciamento social imposto pela pandemia. No Brasil, a polícia atira e mata a esmo. Em Sergipe não é diferente.
A tendência de crescimento da letalidade policial preocupa e também aponta o despreparo daqueles que deveriam estar a serviço da população. Via de regra, quando falta qualificação técnica abunda a má fé, ou o puro ímpeto, o simples voluntarismo. Este é justamente o caso. Infelizmente, a polícia brasileira não está preparada para lidar com incidentes de alta periculosidade apela sempre para o último recurso. Atira primeiro, muitas vezes sem real necessidade, pergunta depois.

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