Alegria, alegria…

* Luciano Correia

Quando Caetano Veloso cantava em outros festivais, os ares dos grandes encontros culturais de Águas Claras, Garanhuns e Woodstock chegaram à bucólica São Cristóvão de Sergipe. No começo dos anos 70, ainda tão perto da Tropicália e já tão longe do agora. O agora, aliás, é um desafio para Carlos Cauê, quem pilota este renascido FASC. Mas os de antes merecem uma câmera para trás, um travelling de saudades e soluços. Gemidos nas barracas armadas na praça da ladeira. Um “beise” (alguém ainda sabe o que é isso?) rolando de mão em mão.

Eu só queria impressionar Ró, Rosângela, morena de olhos miúdos, quase índia, cabelos pretos até as ancas, de cheiro eternamente gravado nos meus sonhos, quase casada com Tonho, colega de Ufba e de Residência Estudantil do Corredor da Vitória. Minto, era casada, sim. Mas naquele tempo, como haviam festivais de artes, haviam relações semi-abertas, onde cabiam paixões fora de casa. Ró foi minha maior descoberta e coincidia com o olhar sobre um mundo novo que se abria, de artistas e artes, de Glauber Rocha e teatro de rua. A vida, afinal, podia ser diferente, sim.

Éramos vários, de diferentes cursos da então irrequieta Federal da Bahia. De tendências que iam dos libertários aos comunistas de carteirinha. A esquerda odara. Foram embora no último dia, varridos pelo bota fora do day after, impregnados de um mundo louco e colorido. Eu, embriagado de uma paixão magnética.

E outros vieram depois, com Moreira da Silva, 97 nas costas, sambando feito um malandro e passando cantada nas meninas descoladas (quem manda se meter com velho safado?). Ou antes ainda, no palco do Convento, vendo as danças modernas de fora e a dança moderna de Lu Spineli. Os tambores ecoando nos becos, a Aertando contas com o passado de uma cidade que escravizou negros e agora se rendia às evoluções de Erê, furando o infinito com bruscos movimentos. A UFS fazendo vanguarda, esbanjando charme com Verena, Sandra, a menina Del Alencar, paixão platônica do meu primeiro Fasc. A poesia de Mara Lopes. As aparições do “Reitorzinho” Luiz Eduardo Oliv , ou do reitor Cajueiro, do violão de Cidão ou das vozes do Cata Luzes. O PT pintando na praça, recém-nascido e maldizendo do “Partidão”. O DCE revolucionário nas barbas de Clímaco César. A Polícia Federal sempre atenta a nos vigiar (claro, que seria de nós se eles não ligassem pra nossa revolução? Íamos todos parar no psicólogo). A Praça da Cachaça a cumprir sua função metafísica: acomodando todo , embalando-nos nos vapores de álcool e resolvendo romances. Porque o festival era de arte mas ninguém era de ferro.

Foi assim.

* Luciano Correia, jornalista e professor da UFS.

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