Saumíneo Nascimento
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No dia 03 de maio de 2026, Milton Santos completaria 100 anos. O centenário de nascimento de Milton Santos (1926-2001) convida não apenas à celebração de uma trajetória intelectual singular, mas sobretudo à revisitação de um pensamento que permanece surpreendentemente atual. Geógrafo, professor, intelectual público e crítico da globalização, Milton Santos foi o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud – considerado o “Nobel da Geografia” – e construiu uma obra que reposicionou a geografia como ciência crítica, profundamente comprometida com a compreensão das desigualdades sociais e espaciais.
Cabe registrar que o Prêmio Vautrin Lud, que foi criado em 1991, sendo a maior honraria internacional da Geografia. Ele é concedido anualmente na França e reconhece geógrafos com trabalhos de destaque. O geógrafo brasileiro Milton Santos foi agraciado na 4ª edição do prêmio, em 1994.
Nascido em Brotas de Macaúbas, na Bahia, Milton Santos formou-se em Direito, mas encontrou na Geografia o campo privilegiado para analisar as contradições do desenvolvimento. Sua trajetória acadêmica foi marcada por forte inserção internacional: lecionou em universidades na França, nos Estados Unidos, no Canadá e em diversos países da África, especialmente durante o período de exílio imposto pela ditadura militar brasileira. Como intelectual influente, negro e de pensamento crítico, foi preso e, posteriormente, pressionado a deixar o país, passando 13 anos na Europa e América do Norte, onde construiu carreira internacional renomada. Esse trânsito global não o afastou do Brasil; ao contrário, ampliou sua capacidade de interpretar o país à luz de dinâmicas mais amplas do capitalismo mundial.
Durante a sua trajetória intelectual, Milton Santos recebeu 20 títulos de Doutor Honoris Causa de diversas universidades no Brasil e ao redor do mundo, uma delas pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) em 1995. Os títulos foram concedidos por instituições no Brasil, América Latina e Europa entre 1980 e 2000. Ele também publicou mais de 40 livros e 300 artigos, tornando-se uma referência mundial no estudo da globalização e do espaço urbano.
Um dos eixos centrais da obra de Milton Santos é a crítica à globalização hegemônica. Em livros como Por uma outra globalização (2000), Milton Santos propõe distinguir entre a “globalização como fábula” – narrativa dominante que promete integração e progresso – e a “globalização como perversidade”, marcada pela ampliação das desigualdades, pela exclusão social e pela subordinação dos territórios às lógicas do capital financeiro. Para ele, a globalização não é um processo neutro ou inevitável, mas um fenômeno historicamente construído, passível de contestação e transformação.
Outro aspecto fundamental de sua contribuição é a análise do meio técnico-científico-informacional. Para Milton Santos, o avanço das tecnologias e das redes de informação redefine o espaço geográfico, criando novas formas de conexão, mas também aprofundando assimetrias. As infraestruturas modernas – telecomunicações, transportes, sistemas financeiros – não se distribuem de maneira homogênea, gerando uma geografia desigual que privilegia determinados lugares e marginaliza outros. Essa leitura antecipa debates contemporâneos sobre desigualdade digital, concentração de riqueza e poder das grandes corporações globais.
Milton Santos também foi um crítico contundente da visão economicista do desenvolvimento. Em vez de medir o progresso apenas por indicadores macroeconômicos, ele defendia a centralidade do ser humano e da cidadania. Sua obra propõe uma geografia comprometida com a justiça social, capaz de revelar as condições de vida das populações marginalizadas e de contribuir para a formulação de políticas públicas mais inclusivas.
Uma parte importante de seus estudos foi o desenvolvimento da teoria dos circuitos superior e inferior da economia urbana, explicada em sua obra “O Espaço Dividido”, que descreve a coexistência e interdependência de uma economia moderna/globalizada e outra local/informal nas metrópoles.
No Brasil, sua influência ultrapassa o campo acadêmico. Seu pensamento dialoga com áreas como planejamento urbano, economia regional, sociologia e ciência política. Em um país marcado por profundas desigualdades territoriais, suas análises oferecem instrumentos valiosos para compreender fenômenos como a urbanização acelerada, a segregação socioespacial e a concentração de infraestrutura em regiões específicas.
Cem anos após seu nascimento, Milton Santos permanece um autor indispensável. Em um mundo atravessado por crises – climática, econômica, sanitária e política -, suas reflexões sobre o papel do território, a crítica à globalização e a busca por alternativas mais justas ganham renovada relevância. Mais do que um geógrafo, ele foi um pensador do mundo contemporâneo, capaz de articular teoria e compromisso social.
Celebrar seu centenário é, portanto, mais do que um exercício de memória. É um convite à ação crítica: revisitar suas ideias, atualizá-las diante dos desafios do século XXI e reconhecer que a construção de um mundo mais equitativo passa, necessariamente, pela compreensão das geografias que o estruturam. Em tempos de incerteza, o legado de Milton Santos continua a oferecer não apenas diagnóstico, mas também horizonte para que surjam novos intelectuais na Região Nordeste que contribuam para a evolução do nosso país.


