O mundo tende a ser melhor – Parte 2

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

Dentro deste mundo melhor, temos o Brasil, que ao longo deste último Século, apresentou avanços expressivos. O país apresenta atualmente expectativa de vida de aproximadamente 76 anos e uma parcela relativamente pequena da população abaixo da linha internacional de extrema pobreza de US$ 3 por dia, embora permaneçam desigualdades importantes de renda, patrimônio, educação e oportunidades.
Não podemos negar que a desigualdade ainda existe, mas a sociedade mudou e precisamos fazer uma distinção. O mundo ainda é desigual. O Brasil continua sendo uma sociedade marcada por diferenças significativas de renda, patrimônio, educação e acesso a oportunidades. Entretanto, a desigualdade contemporânea é enfrentada com instrumentos que praticamente não existiam há um século: políticas de transferência de renda, previdência social, educação pública, sistemas universais de saúde, legislação trabalhista, proteção à infância, políticas de inclusão, microcrédito e programas de combate à fome.
Mais importante ainda, tivemos a mudança da própria percepção da sociedade sobre o que é aceitável.
Em 1926, determinadas formas de desigualdade eram encaradas como naturais. Hoje, a pobreza extrema, a fome, a discriminação e a ausência de oportunidades são reconhecidas como problemas públicos que podem e devem ser enfrentados.
Essa transformação cultural talvez seja tão importante quanto a econômica. Essa reflexão encontra forte respaldo no pensamento de Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 1998 por suas contribuições à economia do bem-estar. Amartya Sen ajudou a mudar a maneira como pensamos em desenvolvimento. Desenvolvimento não deveria ser medido apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Uma sociedade é verdadeiramente desenvolvida quando amplia as capacidades das pessoas: capacidade de viver mais, estudar, trabalhar, participar da sociedade, escolher seu próprio caminho e exercer sua liberdade.
Para mim essa visão é essencial para compreender o século XXI, pois o verdadeiro progresso não é simplesmente produzir mais automóveis, computadores ou toneladas de alimentos. É permitir que mais pessoas tenham condições de viver uma vida que considerem digna e significativa.
Outro economista fundamental é Angus Deaton, laureado com o Nobel de Economia de 2015 por sua análise do consumo, da pobreza e do bem-estar. Deaton estudou justamente a relação entre renda, consumo, saúde e desenvolvimento. Sua obra sobre a chamada “Grande Fuga” ajuda a compreender a trajetória da humanidade em que milhões de pessoas escaparam simultaneamente da fome, da pobreza, das doenças e da mortalidade precoce. Mas existe uma advertência importante, a fuga não aconteceu igualmente para todos.
Alguns países e grupos sociais avançaram muito mais rapidamente que outros. Portanto, o próximo estágio do desenvolvimento não será apenas produzir riqueza, mas distribuir melhor as oportunidades de acesso à saúde, educação, tecnologia e renda.
Adam Smith, no século XVIII, mostrou que a divisão do trabalho, a especialização e a expansão das trocas poderiam elevar extraordinariamente a produtividade e a riqueza das sociedades. Mas Smith não reduzia a vida humana à riqueza material. Sua obra também tratou da moralidade, da justiça e das relações sociais. Duzentos e cinquenta anos depois da publicação de A Riqueza das Nações, suas ideias continuam presentes nos debates sobre mercados, prosperidade, comércio e organização econômica.
Mas foi John Maynard Keynes quem fez talvez uma das mais fascinantes previsões sobre o futuro. Em 1930, em seu ensaio Economic Possibilities for our Grandchildren, Keynes imaginou que o crescimento da produtividade poderia permitir uma sociedade de abundância, na qual as pessoas trabalhariam muito menos e teriam muito mais tempo para lazer, cultura e convivência.
Ele chegou a imaginar uma jornada de aproximadamente três horas por dia, ou quinze horas semanais, como possibilidade para uma sociedade futura.
Keynes acertou em uma dimensão importante, pois a humanidade realmente aumentou extraordinariamente sua produtividade e riqueza. Errou, entretanto, na velocidade com que reduziríamos o tempo dedicado ao trabalho.
O problema econômico mudou. E as famílias? Talvez seja aqui que a mudança seja mais profunda, pois a transformação da sociedade não ocorreu somente na economia ou na medicina. Ela também atingiu profundamente as relações familiares.
Em 1926, a família era, em geral, mais hierarquizada. Os papéis de homens e mulheres eram mais rígidos. O casamento era mais frequentemente encarado como uma instituição permanente, e as decisões familiares estavam fortemente associadas à autoridade paterna. As famílias também eram maiores. A mulher tinha participação muito menor no mercado de trabalho e no ensino superior. A educação dos filhos era mais baseada na autoridade e na disciplina. A convivência entre gerações era mais intensa porque várias gerações frequentemente viviam próximas ou na mesma residência.
Hoje temos famílias menores, maior participação feminina no mercado de trabalho, maior autonomia individual, casamentos e uniões formados mais tarde, maior diversidade de estruturas familiares e maior participação dos filhos nas decisões.

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