O mundo tende a ser melhor – Parte 3

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

Ganhamos liberdade, mas também perdemos algumas formas de convivência. A tecnologia aproximou quem está distante, mas às vezes afastou quem está próximo. É possível uma família inteira estar reunida em torno de uma mesa e, simultaneamente, cada pessoa estar conectada a uma realidade diferente por meio de seu telefone.
Portanto, o progresso social não significa necessariamente que tudo ficou melhor em todas as dimensões. Alguns avanços produziram novos problemas. A grande questão para o futuro será combinar liberdade individual com vínculos sociais, tecnologia com humanidade, longevidade com qualidade de vida e crescimento econômico com sustentabilidade.
Vamos também remontar há um tempo passado ainda maior que um Século, irei para o ano aproximado do nascimento de Cristo, quando a vida humana era marcada por limitações que hoje são difíceis de imaginar. A maior parte da população vivia no campo, dependia diretamente da agricultura e estava sujeita às variações do clima, das guerras, das epidemias e da escassez de alimentos. A mortalidade infantil era elevadíssima e a expectativa de vida ao nascer era baixa, embora isso não significasse que todos morressem jovens, pois aqueles que conseguiam sobreviver à infância podiam alcançar idades relativamente avançadas.
Não existiam antibióticos, vacinas modernas, anestesia cirúrgica, saneamento básico universal, eletricidade, automóveis, aviões ou telecomunicações. Uma infecção que hoje pode ser tratada com medicamentos poderia então ser fatal. Uma fratura ou uma complicação durante o parto poderia significar a morte. A dor fazia parte muito mais intensamente da experiência cotidiana.
A sociedade também era profundamente hierarquizada. A escravidão existia em diferentes civilizações, as mulheres tinham direitos muito restritos em grande parte das sociedades, a educação era privilégio de minorias e a mobilidade social era pequena. A ideia contemporânea de cidadania universal, direitos humanos e igualdade perante a lei simplesmente não fazia parte da realidade da maioria das pessoas.
Durante os séculos seguintes, a humanidade avançou lentamente. Houve períodos de extraordinária produção cultural e científica, como a Antiguidade clássica, o mundo islâmico medieval, o Renascimento europeu e a Revolução Científica. Mas também houve guerras, perseguições religiosas, fome, epidemias e grandes desigualdades.
A Peste Negra, no século XIV, é um exemplo da vulnerabilidade humana. Uma pandemia poderia eliminar uma parcela enorme da população sem que a medicina tivesse instrumentos para compreender adequadamente sua origem ou impedir sua propagação.
A partir dos séculos XVIII e XIX, entretanto, ocorreu uma ruptura histórica. O Iluminismo, a Revolução Industrial, a expansão da ciência, a urbanização e o desenvolvimento das instituições modernas começaram a modificar profundamente a existência humana.
A humanidade passou a produzir mais alimentos, bens e energia. A máquina substituiu parte importante do trabalho físico. A imprensa ampliou a circulação do conhecimento. A ciência passou progressivamente a substituir explicações mágicas para diversos fenômenos naturais. A vacinação, a microbiologia, o saneamento e posteriormente os antibióticos revolucionaram a saúde.
Já no início do século XX, entretanto, ainda estávamos muito distantes do mundo atual, ou seja, em 1900, uma grande parte da população mundial ainda era analfabeta. As condições sanitárias eram precárias. A mortalidade infantil permanecia elevada. A tuberculose, a pneumonia, a diarreia, a varíola e outras doenças infecciosas matavam milhões de pessoas. Não havia televisão, internet, aviação comercial ou comunicação instantânea global.
Em pouco mais de um século, a transformação foi extraordinária, pois hoje, bilhões de pessoas têm acesso a tecnologias que pareceriam mágicas para alguém de 1900. Podemos conversar instantaneamente com alguém que está do outro lado do planeta, realizar diagnósticos por imagens, transplantar órgãos, tratar diversos tipos de câncer, controlar doenças crônicas, produzir alimentos em escala gigantesca e acessar praticamente todo o conhecimento humano por meio de um aparelho que cabe na palma da mão.
Tem um ponto nesta evolução da humanidade que é sobre porque a religião acompanhou toda essa trajetória. Entendo que é justamente nesse ponto que a história se torna ainda mais interessante. A religiosidade não desapareceu com o avanço da ciência. Ao contrário, ela assumiu diferentes formas ao longo da história.
No mundo antigo, religião, política, natureza e organização social estavam profundamente interligadas. Os seres humanos procuravam compreender fenômenos que não conseguiam explicar como nascimento, morte, doenças, tempestades, secas, fertilidade, guerras e a própria existência.
A religião oferecia não apenas explicações sobre o desconhecido, mas também sentido, pertencimento, normas morais e esperança.
O cristianismo, surgido no contexto do Império Romano, introduziu e fortaleceu concepções que posteriormente teriam enorme influência na civilização ocidental, como a dignidade do indivíduo, a solidariedade com os pobres, a valorização da caridade e a ideia de uma comunidade que ultrapassava fronteiras de origem social.
Ao longo dos séculos, diferentes tradições religiosas desempenharam papéis fundamentais na formação das sociedades. A Igreja Católica preservou conhecimentos, criou instituições educacionais e assistenciais e exerceu enorme influência cultural e política. O judaísmo, o islamismo, o hinduísmo, o budismo e inúmeras outras tradições também contribuíram para a formação de valores, instituições, filosofias e identidades coletivas.

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