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AMAZONIA PEDE SOMBRA


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Publicado em 10 de fevereiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Manoel M. Tourinho, Manoel Moacir C. Macedo, Gutemberg A. Diniz Guerra

A Revolução Industrial, iniciada a partir da segunda metade do Século XVIII, entre 1760 e 1820, ensejou uma transformação radical nas estruturas sociais, políticas e tecnológicas, no nível global e com amplo impacto na vida humana. Nesses duzentos e sessenta e quatro anos, a revolução industrial garantiu o processo de formação do capitalismo nas suas diferentes vertentes: industrial, agrária e comercial. O seu epicentro, foi inicialmente, na Grã Bretanha, a seguir os Estados Unidos, e, mais tarde na Alemanha, Rússia; e hoje a China. Todas disseminaram e disseminam os seus modelos transformadores industriais na via dos “pacotes tecnológicos”, amplamente apoiados pelas agências de cooperação nacional ou financiadores internacionais como o Banco Mundial-WB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento -BID e o Fundo Monetário Internacional – FMI.
No caso brasileiro, exerceu papel relevante as agências nacionais, como Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES,e a Financiadora de Estudos e Projetos -FINEP. Elas viabilizaram,em territórios nacionais o emprego desses pacotes, sem questionamento de suas externalidades.
Destaque anotado do alcance da revolução industrial na produção agrícola foram os famosos “pacotes tecnológicos” alcunhados de “Revolução Verde”, desenvolvido e liderado pelo Agrônomo Norman Borlaug. Este cientista americano julgava possível erradicar a fome mundial, pelo uso de sistemas de produção com sementes genéticas com potência produtiva, a exemplo do arroz, milho, sorgo, por exemplo cultivadas em qualquer latitude, empregando insumos modernos, tais como sementes melhoradas, irrigação, fertilização, defensivos químicos e máquinas agrícolas. No dizer de Rachel Carson, na obra Primavera Silenciosa (1967) o “famélico” se não morresse por falta de comida, morria dos venenos químicos indiscriminadamente aplicados.
Organizações governamentais de desenvolvimento, mundo a fora, adotaram a receita de Borlaug, como o paradigma do aumento linear da produção e da produtividade de lavouras e criações. O Brasil não ficou indiferente, acolhido nos currículos das escolas de agronomia, nas estruturas de crédito e fomento, na praticada extensão rural, e nos portifólios das cooperativas de produtores rurais. Essa ainda é a lógica em uso na de produção agrícola nacional.
No caso específico do bioma Amazônia,onde existe terra disponível e a preço baixo, mas pobre em elementos químicos Apenas 5% dos solos são avaliados como naturalmente ricos, em uma superfície de aproximadamente 5,5 milhões de quilômetros quadrados. A produção nesses solos somente é viável no modelo produtivista, sob custos pesados de insumos químicos e sintéticos. A Amazônia, pela condição de ‘fronteira aberta’, para os apologistas da “Revolução Verde” pode ser o’ideário de Norman Borlaug’.
Atualmente, o estratégico bioma, localizado na maior região brasileira empurra o aceleramento das mudanças climáticas globais. Desmatamento, terras degradadas, urbanização acelerada, uso da terra incompatível com uma agenda de mitigação das mudanças climáticas, contaminações generalizadas dos corpos d’água subterrâneos e águas de superfícies como rios, lagos e igarapés. Garimpos ilegais são adicionados às consequências dos pacotes tecnológicos estimuladores da crise climática e humanitária dos povos originários.
É importante acentuar que a fase da Amazônia extrativista e florestal passou e nada se aprendeu com ela. Mas se observarmos a região com lentes dos postulados epistemológicos e metodológicos kantianos, aguçando a razão e os sentidos, é possível perceber que a Amazônia é terra de uso com a sombra da mata. Sombra é o uso da terra que deu certo. Nada de “pelação rasa” da mata de cobertura. Nenhum cultivo é tão emblemático nessa questão do que o Cacau. Cacau a sombra da floresta é cultivo ecológico perfeito, climaticamente nascido assim, e quando voltou às origens trouxe a “marca da sombra” derivado da sua origem amazônica. O açaí é outro cultivo bem amazônico que tem a sua “marca”. Inventos de domesticação que levam cultivares a pleno sol não passam de apanágios do fracasso global, sistêmico, integral e integrado.
A questão central do uso da terra na Amazônia como fator favorável- atenuante das mudanças climáticas, deve ter com objetivos: (1) Praticar a ocupação da terra e o solo baixo à sombra da mata. (2) Mudar os membros da equação da produção, de produção/produtividade para qualidade/quantidade, ou seja, minimização da grandeza. A teoria do “Small is beautifull” de Schumacher é mais apropriada. (3) Nenhum negócio agrícola e/ou criatório deve exceder a cem (100) hectares. Não há necessidade de reserva legal florestal; todo uso se fará baixo a sombra.(4) A extensão rural, o ensino agrícola e a pesquisa, na Amazônia, devem ter as suas orientações ontológicas, propositivas ao desenvolvimento das transferências do conhecimento e geração do conhecimento direcionados integralmente à prática do uso da terra, baixo a sombra florestal já existente.
Ao final, caso a soja e a pecuária sejam adaptadas “bem baixo à floresta”, sejam benvindas; caso contrário, aqui não será o seu lugar.

*Manoel M. Tourinho, Manoel Moacir C. Macêdo rGutemberg A. Diniz Guerra são engenheiros agrônomos

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