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Contradição


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Publicado em 09 de fevereiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Abraham B. Sicsú

Nada parece claro. Guerras que não terminam. A indiferença toma conta do universo. Virou normal. Depois de três meses, caem no esquecimento, saídas são ignoradas.
Um país diferente. Torcida para que as coisas não dêem certo. Parlamento que quer ser executivo. O que interessa é o dinheiro. Nada se fala dos projetos.
Estados estagnados. Não faltam recursos, faltam idéias. Governadores que só se legitimam como vítimas. Falsa moral criando ambientes do politicamente correto. E a platéia se sensibiliza. Falsas notícias, mas que convencem.
Mundo e País muito confusos.
Crônicas procuram ser diretas. Sua linguagem deve ser entendida pelo leitor. Pouco rebuscamento, pouca tergiversação. Devia ser a regra. Provavelmente não será neste breve texto.
Três frases não me saem da cabeça. As escutei faz tempo e sempre as repito. Fazem parte do meu imaginário, do meu modo de ver o mundo. Formam minha estrutura de pensamento. Talvez expliquem algo, talvez não, sei lá?
O velho Silva Teles dizia: “Nada mais parece com uma casa em demolição do que uma casa em construção”. O desarrumar, o mexer com os alicerces, o romper rotinas, fundamental para mudanças. No popular, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos. Sendo verdade, o que se está fazendo, desestruturando tudo ou construindo o novo? Falo do Brasil, em particular. Cada um verifica a seu gosto. Cada um procura dar o tom que melhor lhe convém. Épocas como estas levam à polarização. O que é turvo se descreve como branco ou preto. Nunca como cinza.
Uma palavra mágica. Surge como norte. Fundamental planejar. Sem dúvida importante. Mas, humanos que somos, esquecemos a incerteza. Planejamento não é certeza, é risco compartilhado. Aposta em algo que realmente se acredita.
Meu professor de engenharia dizia: “Planejamento é uma visão de futuro com o conhecimento que se tem hoje”. O conhecimento evolui. O desvendar do mundo, dos seus fenômenos, muda. Não se tem domínio sobre o que pode vir. O inesperado faz parte. Nem sempre para o bem, muitas vezes para caminhos não desejados.
Desenvolvimentismo econômico exacerbado do século passado nos leva à crise climática e ambiental que aponta para conseqüências tão perigosas. Sob o manto da democracia, regime que apontaria para uma maior igualdade social, se vê surgir estratificações sociais vexatórias, homens que não conseguem subsistir e ricos que pouca idéia tem de seus bens. Sociedade injusta e excludente. Num país como o nosso, o extremo da desigualdade observada nas nações capitalistas.
Uma revolução tecnológica. As máquinas ganham autonomia. Chamávamos de Internet das Coisas- IOT. Agora é Inteligência Artificial-AI. Tudo vai mudar, tudo vai melhorar. Será?
Um amigo sempre diz: “Estamos num mundo Disruptivo”.
Vou ao dicionário e descubro ser aquele que provoca ou pode causar disrupção, rompimento; que interrompe o seguimento normal de um processo; suspensivo.
Em outras palavras, uma época em que tudo muda nos processos e produtos. A dúvida que fica. O que acontece com as necessidades humanas e com o modo de vida desejado? Disso pouco se fala, pouco se escreve.
Sou da época em que uma revolução tecnológica, como foi a microeletrônica, era vista pelo lado da abertura de novas oportunidades, da busca de novos meios que tornassem a vida mais fácil, menos sofrida. Sempre se imaginava como o ser humano melhoraria suas condições de vida.
Isso pode acontecer com a AI? O poder de exclusão é enorme. Quem vai ser incluído no mundo do trabalho? O sucateamento das pessoas passa a ser cada vez mais acelerado. Um contingente enorme de pessoas é prescindível. Num país tão excludente, no curtíssimo prazo, como continuar inserido no mundo concorrencial e permitir que a sociedade não se desestruture de vez?
Isso pode até justificar guerras e convulsões. O capital se reproduziria e as populações minguariam.
Lembro de um livro que li faz muitos anos. Uma sociedade em que existiam os eleitos que o sistema definia como seres úteis. E os excluídos que deveriam ser eliminados. Viviam em porões e nos esgotos, se escondendo e sempre atormentados, com medo.
O problema hoje é que evoluiremos rápido para uma sociedade em que a grande massa da população poderá ser desses excluídos, não haverá como mantê-los, não serão necessários. Será que o capital conseguirá se expandir sem eles?
Mundo confuso e contraditório. Teremos alimentos em abundância, tempo livre em excesso, condições para expandir a sociedade, mas nada distribuído, cada vez mais concentrado.
Um país tropical em que as elites terão tudo. Uma nova classe de apaniguados se forma com tribunos e parlamentares defendendo seus privilégios. Um futuro de desesperança. Espero estar vendo por um prisma que não seja o correto.

* Abraham B. Sicsú, professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco)

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