* Paulo Franklin
Um importante orientador da prática budista consiste em escolher um caminho que nos leve ao controle dos nossos impulsos, evitando o extremismo para assim chegar à perfeita iluminação. Trata-se daquilo que Buda chamou de o "Caminho do Meio", entendido aqui como a temperança, ou seja, a capacidade de o sujeito ser moderado em suas ações, optando por um caminho intermediário diante das decisões que precisa tomar.
Não é nada fácil conviver com ideias diferentes das nossas. Somos teimosos em nossas convicções e parece acender uma chama dentro de nós quando alguém insiste em contrariá-las. Isso ficou mais evidente no cenário político que se instalou no país desde as eleições de 2018. Dividiram-nos em os "da esquerda" e os "da direita", criando-se assim um enorme muro a nos impedir o diálogo, a compreensão e o se colocar no lugar do outro.
Em nome do apoio ao candidato escolhido, muita gente perdeu amigos, brigou com a família, saiu do emprego ou usou de violência para quem ousou pensar diferente daquilo que defendia. Em um telão projetado na avenida Paulista, em São Paulo, uma semana antes da votação do segundo turno, o atual Presidente da República, referindo-se aos seus adversários políticos disse que "essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria".
Dentre as diversas qualidades relatadas nos evangelhos, muito me admira a capacidade de Jesus de deixar as pessoas livres para escolher o caminho que queriam seguir. Jesus não impunha, mas propunha. Fazia o convite, mas não queria ao seu redor seguidores amedrontados, tanto que deixou o jovem rico seguir o caminho por ele escolhido. Sempre que alguém quer impor uma opinião como se fosse a mais perfeita, esquece-se dos ensinamentos do Mestre da Vida.
Essa disputa existente no cenário político nacional teve (e ainda tem) repercussões negativas. Conforme relatado pelo portal Exame (abre.ai/agressões), apoiadores do então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, realizaram 50 agressões no início de outubro do ano passado. Incentivados pelo candidato que prometeu banir a oposição ao seu governo, mandando os adversários para a "ponta da praia", tais apoiadores sentiram-se legitimados a lutar contra aqueles que seu o candidato chamou de "os vermelhos". Refrescando a memória do leitor, "ponta da praia" é o local conhecido por ser a base da Marinha onde opositores da ditadura militar eram executados, na Restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro (abre.ai/metro1).
Em novembro passado, o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos e a Comissão Arns, duas entidades nacionais em defesa dos direitos humanos apresentaram uma denúncia contra o presidente Jair Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional, acusando-o de "incitar o genocídio e promover ataques sistemáticos contra os povos indígenas" (abre.ai/istoe3). De fato, a imagem do país está cada dia mais maculada diante de tanta violência contra as minorias.
Conseguiram semear em nosso meio a violência física e verbal. Hoje, muitos se sentem cansados, ameaçados e angustiados quanto ao presente e ao futuro. Amedrontadas, aos poucos as pessoas vão perdendo o entusiasmo, o bom humor, a paciência e a vontade de lutar. Fechados em si, muitos passam a defender o indefensável, como a recente reforma da previdência, que em muito retirou direitos dos trabalhadores e beneficiários dos programas sociais.
O ódio nunca foi (e nunca será) um bom instrumento para resolver diferenças. Preocupado com os discursos de ódio de alguns políticos, o Papa Francisco ponderou em recente conferência com juristas no Vaticano: "confesso que quando ouço alguns discursos de responsáveis pela ordem ou pelo governo, vêm à minha mente as declarações de Hitler em 1934 e 1936". E mais adiante continuou: "são ações típicas do nazismo que, com sua perseguição contra os judeus, os ciganos e as pessoas de orientação homossexual, representa o modelo negativo da cultura do descarte e do ódio. Foi o que foi feito naqueles dias e hoje está acontecendo novamente" (abre.ai/conversaafiada).
É urgente reaprendermos a arte do diálogo, da tolerância e do respeito ao outro. Em meio ao obscurantismo que assola nosso país, cada um de nós é responsável por semear amor onde estivermos, valorizando os amigos e familiares, mesmo que estes pensem diferente de nós. Faz bem também ler bons livros, cantar a vida, conhecer outras culturas e sermos gratos a Deus por cada coisa boa que Ele nos proporciona a cada dia.
Há sempre outro caminho além do ódio, da ignorância e do medo. Aprendamos com o Mestre da Sensibilidade a interagir com as pessoas, sentir suas dores, se irritar com as injustiças e lutar por um mundo mais humano e fraterno. Como bem destacou o Papa Francisco: "abrir-se aos outros não empobrece nosso olhar, mas nos enriquece, porque nos faz identificar a verdade do outro e a importância de sua experiência, mesmo que escondam escolhas e comportamentos com os quais não concordamos".
Paulo Franklin é advogado.


