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O BOM CARANGUEJEIRO


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Publicado em 07 de fevereiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Thiago Fragata

Caranguejo “de andada” é fácil pegar!Gabavam-se os meninos. Na ladeira Porto da Banca da minha infância, em São Cristóvão, meados da década de 1980, a gente encontrava os bichos até subindo a ladeira, depois de atravessarem a rua. O fato me deixava confuso, imaginava: porque razão eles deixavam os manguezais para ir atrás dasfêmeasna cidade?
No caminho a molecada enchia sacos com oscrustáceos aventureiros. Nesse período do ano, todo mundo pousava de bom caranguejeiro, entretanto descobri que o critério para justificar essa fama não era a quantidade de cordas ou sacos de caranguejos. Explico: segundo os velhos pescadores que passavam dia jogando conversa enquanto consertavam redes, “bom caranguejeiro” era quem pegava o bicho sem se sujar de lama, desconsiderando a época “da andada”. Considerava impossível “tirar caranguejo” do buraco sem chafurdar na lama feito um porco, isso até conhecer Alvinho!
Alvinho cresceu no Apicum Merém, era filho de marisqueira. Em 2 ocasiões, eu estava mergulhando na maré do porto da bancae testemunhei; ele chegoucoma monark vermelha do pai,encostou na parede do barraco de Seu Amarante, arregaçou calça até a canela, tirou camisa, dobrou e acomodou na sela,em seguida adentrou manguezal e em 15 minutos, aproximadamente, retornou com 3 cordas de caranguejo, meia dúzia cada (3×6:18)! Incrível adupla proeza que era afugentar a caça e não se enlamear todo. Antes de montar na bicicleta, batia os pés a beira do mar e então se vestia.
Todo sábado, dia de feira, o jovem ajudava afamília na venda de pescados. Assim como eu, certa feita,ele levantou a mão na Igreja Adventista do Sétimo Dia, aquela que guarda o sábadopara louvar ao Senhor. Nossa diferença, além da habilidade na pega decaranguejos,é que ele atendeu convite do pastor. E, por conta do novo compromisso, sua agenda ficou complicadano dia aprazado.
Ao contrário do pai, a mãe ficou orgulhosa em saber que seu filho iria vestir terno e gravata, além de frequentar a casa de Deus. A rusga no semblante do genitor não era somente pela falta do menino na banca aos sábados, mas a falta das 5 cordas “fresquinhas” tirada no dia!Acontece que Alvinho prometeu manter o contributo, pra mim foiquando mereceu o cinturão de bom caranguejeiro; acreditem, antes de ir pra igreja – o culto iniciava às 9 horas! -, fazia um discretopit stop no manguezal, em seguida entregava o produto na banca dos pais!
Quando eu retornava da feira com mamãe Aidêa gente cruzava com o “mágico” tirador de caranguejos. Ele vinha do Porto da Banca com destino a feira, pedalava sua bicicleta com elegância e cuidado pois no guidão ia pendurada 5 ou 6 cordas. O que mais chamava atenção era sua roupa, gravata, terno, camisa branca, sapatos! Minha cabeça de menino martelava uma questão: como ele conseguia pegar caranguejo incrustado na lama e tá limpo daquele jeito?Muito tempo depois encontrei resposta.
Ele portava um vergalhão de ferro curvo na extremidade, tinha 1 metro. Ignorante, eu entendia que tratava-se de um acessório da bicicleta. Verdade é que desconhecia outras formas de tirar caranguejo do buraco não fosse “no braço”, se espojando na lama. Com destreza, praticava a técnica de introduzir “gancho” no buraco e num rápido movimento de vai-e-vem retirar o crustáceo da zona de conforto.
Ainda tinha um outro mistério, juntar a quantidade de caranguejo, 35 ou 42, em 15 minutos, seria inexequível apenas com o gancho. Alvinho não era ambidestro!O rapaz combinava gancho a outra técnica de captura. No interior da Bahia chamam de “pega caranguejo no laço”. É simples e eficiente. Com um graveto de 20 centímetros, colhido no mangue. Enrola um pedaço de linha de 50 centímetros. Monta uma armadilha na entrada do buraco do caranguejo, assim: enfia graveto do lado esquerdo da saída deixando uma extremidade da linha presa no teto do buraco. Quando o crustáceo sai se enrosca gradativamente a medida que tentava se livrar, geralmente o animal retorna para toca e permanece imóvel a 3 ou 5 centímetros da saída. Esperto, o rapaz armava essa arapuca em 4 buracos enquanto espreitava outros bichos com o gancho
Foi assim que Alvinho conquistou o cinturão de bom caranguejeiro na prática uma vez que já trazia isso no nome (alvo?). Como disse e reitero, até parece mas esta não é uma estória de pescador.

*Thiago Fragata é historiador, escritor e multiartista E-mail: [email protected]

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