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O VAMPIRO BRASILEIRO


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Publicado em 27 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Lelê Teles

Acabo de finalizar um curta-metragem sobre o mais esquecido dos personagens do folclore brazuca.
Trata-se de mucegão, o vampiro brasileiro.
O nossa besta-fera é incorporado pela satânica e espetaculosa atuação de Severino de Mainha.
“A melhor atuação vamp, desde o Nosferatu de Friedrich Wilhelm Murnau”, comentou glória pires.
Nunca se viu um vampiro tão vampírico!
“Sem dúvidas, esse é o mais transilvânico de todos os Dráculas”, cravou a revista estadunidense Movie Your Selfie.
Mas, com mil diabos, zapeou-me a irmã Zuleica, um vampiro brasileiro?
Sim, o Brasil não vive só de carrancas, lobisomens, curupiras e boitatás; no nordeste, graça a lenda do velho vamp do sertão.
Folcloristas creem que o sanguessuga brasileiro seja, na verdade, a lenda do boto amazônico adaptada para a árida paisagem nordestina.
O sacana era talarico e tinha um faro fino para mulheres em período fértil.
Reza a lenda que o vampiro da caatinga era também um habilidoso e sedutor cheirador de cangotes, forrozeiro esfregador e saliente pé de valsa.
O primeiro registro de sua aparição foi por volta de 1910, no forró “Cacete Armado”, no município do buraco quente, onde um chifrudo enciumado meteu sete peixeiradas no bucho do nosso drácula.
O capa preta sequer sangrou, tomou um gole de cachaça, rodopiou com uma piriguete e, em seguida, saiu do salão dando uma satânica gargalhada.
Segundo a enciclopedia do folclore brasileiro, o vampiro do sertão era um cabra bonito e bem arrrumado, chegava nas festas sempre cheiroso e sorridente, “parecia uma sirigaita em dia de missa”, diz a enciclopedia.
Imiscuía-se nos forrós, dava uma talagada num rabo de galo, tirava as raparigas para a dança e punha-se a cangotear as quengas.
Bafejava safadezas nos ouvidos delas, hipnotizava-as com seu olhar abrasivo e enfiava-lhes garganta a dentro sua língua quente e bifurcada.
O xamego, que começava no salão, terminava esparramado numa esteira sobre a relva nua, banhada pelo lampião do luar.
Antes do clarão da aurora, o vampiro soltava uma fumaça pelo cu, em meio à bufa fumegante ele virava um morcego magro e saía voado.
Deixava, como uma tatuagem, a marca dos dois caninos vira-latas no pescoço das moças.
Nos anos ’90, a Globo chegou a fazer uma novela, Vamp, tentando lucrar com o hype do hemo dependente.
Conhecido em piranhas como o rei do quengaço, esse pelintra cheirador de cangotes foi imortalizado por Chico Anysio na figura de Bento Carneiro, que era uma mistura de Araci de Almeida e Carmem Lúcia.
Em toda a América Latina, mucegão ficou conhecido como chupa-cabra, alcunha de duplo sentido rechaçada no nordeste, porque pode levar a crer que o misterioso forasteiro é um felaciante homossexual.
“O vampiro da caatinga”, escreve o mais lúcido folclorista brasileiro, “morreu de sede, com as presas cravadas na palma de um xique-xique.”
Mas segue vivo no imaginário popular, como a loira do banheiro, o velho do saco e a grávida de Taubaté.
Preferi matar o meu vampiro afogado.
Mucegão, se arrastando como um trapo velho sob um sol inclemente, debruça-se sobre o espelho d’água.
Livra-se das botas ensebadas, tira a capa preta e, já quase morrendo de sede vê, como uma miração, a própria imagem diáfana refletida no espelho d’água.
O tarado, então, salta no poço, mirando o próprio pescoço refletido.
Sem forças para bracejar de volta, o miserável sucumbiu, morrendo afogado numa terra onde homens, mulheres, crianças e animais morrem de sede.
Espero que esse filme ajude a trazer o mucegão de volta ao imaginário popular.
Nas feiras, sulancas e quermesses, cordelistas seguem registrando as aparições de mucegão nordeste a dentro.
Ele costuma aparecer nos forrós em casa de reboco, sempre no dia sete do mês sete…
E engravida sete mulheres.
O nordeste tem uma verdadeira legião de vampirinhos, filhos bastardos de mucegão.
Um dia, canta um ponto numa gira de vampiro, haverá uma grande revoada no sertão.
Nesse dia anoitado e madrugador, a vampiragem ganhará as ruas e, desconfiam os estudiosos, faltarão cangotes para tantos caninos.
Squela que tiver de cabelos soltos, prenda-os, é um sinal para a investida do forrozeiro paquerador.
E capricha no perfume!
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é cronista, roteirista e mestre em cinema e narrativas do contemporâneo (UFS)

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