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OS EUA VISTOS POR UM HOMEM TROPICAL:


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Publicado em 27 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


Não tive uma experiência de vida superficial de estrangeiro vivendo em outro país, mas de dentro, de seu interior. Fiz parte de uma família americana liberal (quem casa com estrangeira também adota a sua família) e construí uma família bicultural, brasileira e americana

 

* Afonso Nascimento 
 
Conheço os EUA há mais de quarenta anos. Gostei de viver lá. À diferença de minha experiência francesa, nos EUA eu não vivi perifericamente enquanto estrangeiro. Com efeito, tinha o green card (documento de residência permanente) e podia ter pedido a cidadania americana. Mas para que isso? Para mim, ser brasileiro é muito mais importante. Vou mais longe. Sou brasileiro de esquerda e gosto muito dos EUA. A sociedade americana sempre me agradou, antes, durante e depois de ter morado por lá e não me considero um brasileiro alienado.
Como os EUA entraram na minha vida? Com os primeiros estudos de inglês no ginásio, estudando inglês pelo rádio (BBC, Voice of America), vendo filmes americanos, casando com cidadã de lá, viajando por lá, me esforçando para ler livros em inglês, estudando literatura inglesa e americana na escola secundária, ouvindo música popular americana, assistindo a filmes falados em inglês e legendados em português etc.
Não tive uma experiência de vida superficial de estrangeiro vivendo em outro país, mas de dentro, de seu interior. Fiz parte de uma família americana liberal (quem casa com estrangeira também adota a sua família) e construí uma família bicultural, brasileira e americana. Antes de viver lá e depois de ter voltado ao Brasil, fiz diversas viagens aos EUA e dentro do país viajei um bocadinho por lá. Queria registrar aqui algumas impressões sobre esse país.
Os Estados Unidos são um pedaço grande de terra. Suas fronteiras foram construídas através de guerras, invasões, compras de terras, anexações, etc. Tem clima temperado, mediterrâneo e tropical. É bela a sua natureza: florestas, cânions, montanhas, lagos e rios. O seu litoral tem uma frente atlântica e outra pacífica. Americanos nativos, imigrantes forçados e imigrantes livres levantaram essa nação protestante, mas foram os europeus do centro e do norte da Europa que mais contribuíram para a sua identidade. Movimentos identitários quiseram transformá-los em um mosaic, mas eles caminham no sentido de serem de novo um melting pot.
Não sei se existe um país mais materialista do que os EUA. Contraditoriamente, são um país em que as igrejas são muito frequentadas pelas pessoas, quaisquer que sejam elas. Aliás, coisa rara nos países do dito “primeiro mundo”. Os novos imigrantes, até pela sua necessidade de sobrevivência, seguem o mesmo padrão. O individualismo americano também é algo espantoso, mas, ao mesmo tempo, desconheço outro país cuja população tenha maior senso de comunidade, de associativismo e disposição para o trabalho voluntário.
O racismo americano funciona como uma espécie de “doença social crônica”. Ou, como muita gente já escreveu: uma obsessão americana. Eu diria que tem menos sutilezas que no Brasil. Os americanos inventaram o apartheid antes dos sul-africanos e a matança racial antes dos alemães, porém em menores proporções.
Uma coisa que qualquer estrangeiro observa sem nenhum esforço nos EUA é o nacionalismo dos americanos. Com efeito, não são poucas as casas dos ianques que possuem bandeiras de seu país. Eles se acham os melhores em tudo. O seu nacionalismo é militar, econômico, cultural e científico. Esse nacionalismo tem sido alimentado pela enorme quantidade de guerras diretas e indiretas pelo mundo afora depois da II Guerra Mundial.  Eles sabem que, desde então, têm reinado no mundo.
Indo mais longe, na história da humanidade nunca houve um país imperialista tão poderoso! Mas eles têm consciência de que essa hegemonia começa a mostrar muitas rachaduras nesse século XXI e que terão que dividir o seu poderio no mundo com outras nações. É uma questão de tempo.
Não viajei por todos os cinquenta estados federados americanos. Passei mais tempo em alguns estados mais que em outros. Devo ter conhecido mais: Washington(DC), Califórnia, Connecticut, Delaware, Flórida, Georgia, Illinois, Indiana, Kentucky, Maine, Maryland, Massachusetts, Michigan, New Hampshire, New Jersey, Novo México, Nova Iorque,Ohio, Pensilvânia, Rhode Island (“estado irmão” de Sergipe), Texas, Vermont, Virgínia, Virgínia Ocidental e Wisconsin. Muitas dessas viagens foram feitas com a minha família ou sozinho; em outras eu estive a correr atrás de meus filhos nos estados onde moraram e nas escolas e universidades em que estudaram nos EUA, no Canadá e na Suíça. Sim, lá fui eu atrás deles. Minha ex-esposa e sua família foram quase sempre minhas guias turísticas.
Muitos estrangeiros pensam que os EUA não têm comidas boas. É verdade que não oferecem nada comparável à rica culinária da Europa Latina. Mesmo assim, come-se bem na casa do “grande irmão do Norte”, como se dizia antigamente. Querem exemplos? O churrasco do Texas é muito bom – mas perde para o churrasco brasileiro. Não falo do churrasco que as famílias fazem nos fins de semana nos quintais de suas casas ou em parques. Existem diners que servem café da manhã que são uma delícia. Os pork ribs americanos são fantásticos. O prato de feijão, bacon e açúcar mascavo preparado no forno é uma delícia. Embora as pessoas desprezem os sanduíches americanos, é grande a sua variedade e muitos são deliciosos. A torta de pecã é a minha favorita, mas também gosto muito dos seus cheese cakes. Essas guloseimas só perdem para o bolo de macaxeira de minha mãe. Vinhos da Califórnia, uísque de milho (Bourbon) e cervejas nacionais e regionais competem com quaisquer outras bebidas do mundo. Não falarei aqui dos restaurantes étnicos nos EUA.
Vivendo nos EUA, tive a chance de visitar a Casa Branca (equivalente ao Palácio do Planalto), o Congresso e a Suprema Corte. Os americanos deram, ao mundo, muitas instituições políticas que estão ligadas à sua democracia – importando conceitos elaborados e discutidos pelos europeus. A sua principal contribuição (como invenção histórica) foi o presidencialismo, quando na Europa predominavam as monarquias. Ele terminou sendo adotado em todos os países da América Latina. Também inventaram a primeira república moderna, pouco tempo antes dos franceses.
O federalismo moderno é invenção americana. Deu certo por lá.  Lá não existe justiça eleitoral. São os próprios estados federados que cuidam de suas eleições. Ao lado dessas instituições, existe um sistema de lobbies. Sim, por lá, o lobby é institucionalizado. Eles sabem que políticos, da mesma forma que pressionam por isso e por aquilo, também sofrem pressões de todos os tipos. Pragmáticos, legalizaram os seus grupos de pressão. Embora tenham conhecido períodos de instabilidade, os EUA possuem a democracia mais longeva do mundo – a qual tem sofrido ameaças recentes da parte da extrema-direita e de políticos extremistas como Donald Trump.
Ainda tratando das instituições políticas americanas, criaram um sistema bipartidário (Democratas e Republicanos) que simplifica o processo de escolha de sua classe política. Essas duas agremiações atravessam as famílias por gerações. Também introduziram o voto distrital, algo que reforça o bipartidarismo e amarra os políticos eleitos aos seus eleitores. A cada novo censo decenal, tem muita briga para saber como ficará a distribuição da população em distritos. Lá existem um senado federal ecinquenta senados estaduais. Problemas de corrupção na política não são desconhecidos nos EUA.
Malgrado muita gente ignorar esse fato, existe uma esquerda americana dentro e fora do Partido Democrata. Nos meios universitários, percebi que são muito atuantes as esquerdas identitárias, além dos dois partidos políticos. Todavia, o anti-comunismo e o anti-esquerdismo são fortíssimos! “Better dead than red” (melhor morto do que vermelho), dizem eles até hoje. No tempo do macartismo, durante a “guerra fria”, a perseguição à gente de esquerda foi intensa nos ambientes intelectuais, nos sindicatos, na indústria do cinema, etc.
O sistema jurídico americano é bem diferente do brasileiro.  O Brasil adota a “civil law”, como o estado da Louisiana colonizado por franceses. Os americanos trabalham com a “common law” inglesa. É um sistema baseado no precedente ou nas decisões anteriores dos tribunais. Lá como cá, os juízes não estão tão obrigados a seguir o que diz a lei escrita e não tão soltos para fazer o que quiser na ausência de precedentes.
Por que os americanos não possuem uma constituição como a França e o Brasil? Só tiveram uma constituição até hoje. Por que? O documento constitucional deles contém princípios gerais. O segredo está no federalismo dos estados e na sua “common law”. Acho que o sistema de júri (civil e criminal) ajuda no sucesso do sistema jurídico americano. Nos últimos tempos, os americanos têm produzido muita teoria jurídica (competindo com os europeus) e exportando regras e reformando instituições jurídicas brasileiras, com a ajuda do Banco Mundial.
Quero pôr um ponto final nessas memórias dizendo que, vivendo o cotidiano dos EUA, me dei conta que, não sendo a lei aplicada, não se faz uma grande nação. A lei nos Estados Unidos é coisa séria. Esse não é bem o caso do Brasil.
 
* Afonso Nascimento, professor aposentado da UFS
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