Os efeitos do El Niño em Sergipe

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

Os eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos em diversas regiões do planeta. Entre os fenômenos de maior relevância para o Brasil destaca-se o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora ocorra a milhares de quilômetros de distância, seus efeitos influenciam significativamente os padrões de chuva e temperatura em várias regiões brasileiras, especialmente no Nordeste.
Em Sergipe, o El Niño está associado, na maioria dos episódios, à redução das chuvas, ao aumento das temperaturas e à ampliação dos períodos de estiagem, principalmente nas regiões do Alto Sertão, Médio Sertão e Agreste. Seus reflexos atingem diretamente a agricultura, a pecuária, o abastecimento de água, a construção civil e diversos segmentos da economia estadual.
Estudos desenvolvidos pela Universidade Federal de Sergipe demonstram que os eventos de El Niño alteram significativamente o regime pluviométrico estadual. Os impactos são mais severos nas regiões semiáridas do interior, onde ocorre redução da precipitação, diminuição da umidade do solo e aumento da evapotranspiração.
O Alto Sertão sergipano figura entre as áreas mais vulneráveis, apresentando reduções expressivas dos volumes de chuva durante episódios intensos do fenômeno. Já o litoral e a região sul do estado tendem a sofrer impactos menos intensos, embora também possam registrar alterações nos padrões climáticos habituais. Além da redução das chuvas, o El Niño provoca temperaturas mais elevadas, ampliando o consumo de água, pressionando reservatórios e aumentando os riscos de queimadas e degradação ambiental.
Cabe lembrar que o século XXI já registrou diversos períodos críticos de estiagem em Sergipe. A Grande Seca de 2012 a 2017 – considerada a mais severa e prolongada estiagem da história recente do Semiárido brasileiro, a seca iniciada em 2012 atingiu fortemente Sergipe, provocando perdas agrícolas, redução de rebanhos, colapso de pequenos sistemas de abastecimento e queda dos níveis dos reservatórios. O período acumulou sucessivos anos com chuvas abaixo da média e foi amplamente influenciado por eventos climáticos associados ao El Niño, especialmente entre 2015 e 2016. Depois tivemos a estiagem de 2023 e 2024, que foi durante o forte El Niño de 2023-2024, diversas áreas do sertão sergipano voltaram a registrar agravamento das condições de seca. Relatórios do Monitor de Secas apontaram expansão das áreas classificadas entre seca moderada e grave, sobretudo no Alto Sertão e Agreste Central. E agora precisamos refletir sobre as perspectivas para 2026, pois os órgãos meteorológicos vêm acompanhando a possibilidade de novos episódios de El Niño.
A agricultura é um dos setores mais sensíveis às oscilações climáticas. Vale lembrar que as principais culturas afetadas em Sergipe incluem: milho; feijão; mandioca; hortaliças e fruticultura irrigada.
A redução das chuvas compromete a germinação, o desenvolvimento das plantas e a produtividade das lavouras. Pequenos produtores familiares são particularmente vulneráveis, pois dependem das chuvas regulares para garantir a produção e a renda.
Além disso, a pecuária sofre com a diminuição das pastagens, aumento do custo da alimentação animal e redução da produção leiteira. Estudos realizados em Sergipe apontam que os territórios do Alto Sertão e do Agreste Central concentram os maiores impactos socioeconômicos decorrentes das secas prolongadas.
Embora frequentemente menos lembrada, a construção civil também sofre impactos relevantes, pois durante períodos de seca prolongada podem ocorrer: aumento do custo da água utilizada nas obras; redução da disponibilidade hídrica para concretagem; maior incidência de fissuras e recalques em solos sujeitos à contração e aumento do risco de incêndios em áreas urbanas e periurbanas. Por outro lado, em anos subsequentes ao El Niño, quando ocorrem chuvas concentradas e intensas, podem surgir problemas relacionados a erosões, deslizamentos localizados e danos à infraestrutura urbana.
A diminuição dos níveis de barragens e reservatórios aumenta os custos operacionais dos sistemas de abastecimento e pode exigir medidas de racionamento. Além disso, poderemos ter a redução da disponibilidade hídrica que afeta a geração hidrelétrica nacional, pressionando tarifas e elevando custos para empresas e consumidores.
A queda da renda agrícola reduz o consumo em municípios dependentes do setor rural, impactando comércio e serviços. Por outro lado, temperaturas mais elevadas podem favorecer o turismo de praia em determinados períodos, mas eventos extremos e crises hídricas podem afetar a infraestrutura turística.
Assim, o enfrentamento dos efeitos do El Niño exige planejamento de longo prazo. Entre os principais investimentos estratégicos para Sergipe destacam-se: segurança hídrica; ampliação de adutoras; construção e recuperação de barragens; interligação de sistemas de abastecimento; perfuração de poços em áreas críticas e expansão do reúso de água.
O El Niño representa um dos fenômenos climáticos mais relevantes para Sergipe. Sua influência sobre o regime de chuvas, as temperaturas e os recursos hídricos afetam diretamente a agricultura, a pecuária, o abastecimento de água, a construção civil e diversos setores econômicos.
A questão agora é planejar como Sergipe deve se preparar para os próximos episódios de El Niño, ressaltando que referida preparação para eventos climáticos extremos deve envolver governo, setor produtivo e sociedade. Além disso, a capacidade de adaptação de Sergipe dependerá cada vez mais da combinação entre ciência, planejamento, gestão pública eficiente e participação da sociedade, permitindo transformar riscos climáticos em oportunidades de desenvolvimento sustentável.

Compartilhe esta notícia