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PAPAI NOEL


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Publicado em 23 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Manoel Moacir Costa Macêdo

Desconfio de Papai Noel. As razões são antigas. Elas remontam a infância em Rio Real, na Bahia, no século passado. Nunca me visitou e nem trouxe presentes. Deixei o sapatinho na beira da cama e não recebi presente. No sonho de criança, imaginava que odiava as crianças pobres do interior do “Brasil Real”.
Escrevi cartas e postei nos Correios. Não recebi respostas. Duas eram as justificativas da ausência. As cartas eram desviadas, realidade convincente à época, os Correios não eram confiáveis. Outra, a longa viagem do velhinho, da distante Lapônia, no Polo Norte, aos tristes e quentes trópicos no hemisfério Sul. Preferia os bem-criados do frio e das mansões do “Brasil Oficial”.
Acreditei que desprezava as crianças maltratadas do Nordeste brasileiro. O tempo passou. Compreendi que você não existe no mundo real, uma fantasia mercantil incutida na consciência das crianças. O louvor à data do nascimento de Jesus Cristo, no mês de dezembro, também não é pacificado na história e nem nas religiões,existem controvérsias.
Papai Noel, confesso, estou arrependido da velha desconfiança. Na magia natalina, vamos esquecer as mágoas do passado e continuar na figurativa imaginação. Ódios destroem e travam a evolução. Proponho um ‘Acordo de Paz’, mediado pelos espíritos da cristandade. As cláusulas, não são os pedidos pessoais, mas os coletivos e até ilusórios. És poderoso, e pode atender. Caso esteja cansado, rogamos aos céus a energia para a longa viagem. Aqui “Deus é brasileiro e pátria do evangelho”, mas o Papa é argentino.
Rogo a sua bondade, mas para os invisíveis. São muitos, mas satisfazem com pouco. Peço apenas o necessário. Abomino o supérfluo e o desperdício. Por aqui muitos nada têm. A abundância está concentrada em poucas mãos. Não deveria nem pedir, pois são necessidades elementares do humanismo. Comida, moradia, educação, trabalho e saúde. Não pesam em seus sacos. Não são moradias nos Jardins, Beira Mar e Lagos, mas na Mata Escura, Terra Caída e Sem Terra. Não se trata de ceia para a noite luminosa de Natal, com caviar e chester, mas feijão com arroz, no pão-nosso-de-cada-dia. Não são preces dos lábios hipócritas majoritariamente cristãos, mas a força da indignação e da justiça social. Não são brinquedos eletrônicos e nem roupas de marcas, mas retalhos das sobras dos outlets. Não tenho coragem de pedir automóveis, mas o transporte coletivo decente. Não peço dinheiro, mas emprego, um direito natural da cidadania. Não peço escola privada, onde estão os filhos da elite, escamoteando a meritocracia, mas escola pública de qualidade para os filhos do povo.
Papai Noel, os pedidos estão postos. A conciliação tem pressa. No hemisfério Sul, ainda somos tupiniquins. Não tenha vergonha de atender. A vida é dura, desigual e de provas e expiações. Trabalha-se muito e ganha-se pouco. Esqueci de pedir hospitais e UPAS públicas. Intervenções cirúrgicas demoram anos para ser atendidas, algumas chegam após os desencarnes. Não estou pedindo planos de saúde, tais quais os privilegiados alojados nos poderes e palácios. Nem irei pedir clemência, aos que caíram em erros. Peço justiça nas prisões humanas, e não em masmorras medievais, que transformam inocentes em delinquentes.
Perdão Papai Noel, pelas minhas incompreensões juvenis. Desculpe pela sinceridade adulta. Escolhi como prumo da existência a sublime verdade. Caso não possa viajar, pelas restrições da utópica distância, envie as ordens por e-mail, whatsapp, instagram ou tiktok da fria Lapônia, extremo norte da Finlândia. Não se escrevem cartas e nem enviam pelos Correios. Os invisíveis cá embaixo, estão à espera, mesmo que seja em ficção. Como escreveu o poeta moçambicano Mia Couto: “O tempo urge. O corpo tem prazos. A vida tem pressa”.

* Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro
agrônomo e advogado.

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