**PUBLICIDADE
Publicidade

POR UMA CASA BRASILEIRA


Avatar

Publicado em 14 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Ricardo Nunes

Vivemos em uma cidade tropical úmida, com chuvas intensas no inverno e calor o ano inteiro. Se quisermos viver em uma casa ambientalmente confortável que nos abrigue e proteja dessas intensidades tropicais comecemos por pensar em uma ampla sombra; uma sombra aberta, onde a brisa penetre e circule livremente, retirando o calor e a umidade; por uma sombra amena, lançando mão de uma cobertura ventilada, que reflita e isole a radiação do sol. As paredes devem estar sob esta sombra, recuadas, protegidas do sol e do calor, das chuvas e da umidade, criando agradáveis áreas externas de convivência: terraços, varandas, pérgolas, jardins sombreados; locais onde se possa estar em contato com a natureza e com o límpido céu do Nordeste. Deixemos o espaço fluir, fazendo-o livre, contínuo e desimpedido. Retomemos os avarandados onde podemos descansar à luz do meio-dia. Como diz Gilberto Freyre, nos valhamos dos passados úteis. Passados ressurgentes. Passados que existem como inspirações a arquiteturas que se tornem modernas sem deixarem de ser brasileiras.
Agora vamos a questão que me move a escrever este texto: O que acontece com a arquitetura desta cidade tropical úmida, com chuvas intensas e calor o ano inteiro, mas que adotou uma forma de construir e morar em caixas fechadas por paredes e vidros, sem telhados, sem varandas? Casas que não respiram e não deixam respirar! Construções com um “estilo” que se multiplica de forma contínua pelos condomínios criando a ideia de monotonia e repetição, e que não faz parte da diversidade e da criatividade da Arquitetura e dos verdadeiros arquitetos. O que vemos é uma “arquitetura” desvinculada do contexto climático e cultural da nossa cidade. Podemos até afirmar que o que vemos não é produto da Arquitetura como uma forma específica de conhecimento, uma vez que esta arte só se realiza plenamente quando integrada à natureza em que está. Então, por que arquitetos e clientes insistem em repetir este contrassenso destituído de sentido e racionalidade? Porque está impregnada em suas almas a ideia de que somos uma colônia e que só seremos “modernos” se fizermos igual ao colonizador. Uma fidelidade irracional a países que tem outonos e primaveras. Ao que Nélson Rodrigues classificou de “complexo de vira-lata.” Um sentimento de inferioridade ao que é estrangeiro e que para compensar esta falta de autoestima, copia-se o que é feito em Miami, por exemplo. Afinal, o que é bom para Miami “deve” ser bom para Aracaju. Mas não é! Livremo-nos dessa dependência cultural em relação ao colonizador e trabalhemos no sentido de uma Arquitetura que seja uma clara expressão de nossa cultura. Uma Arquitetura sombreada, aberta, contínua, acolhedora e envolvente, que, ao nos colocar em harmonia com o ambiente tropical, incite-nos a nele viver integralmente.

* Ricardo Nunes é arquiteto, mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFS.

**PUBLICIDADE



Capa do dia
Capa do dia



**PUBLICIDADE


**PUBLICIDADE
Publicidade