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Retrospectivas e Perspectiva


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Publicado em 23 de dezembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Abraham B. Sicsú

Economia é a ciência das expectativas, das incertezas advindas das visões diferentes da realidade. Expectativas que definem investimentos e conseqüentemente patamares de empregabilidade e de renda. Nada exato, tudo alicerçado nas potenciais convicções que se formam socialmente, que se difundem como crenças majoritárias, principalmente dos agentes que definem os investimentos.
Todos os anos, alguns profissionais se arvoram do poder de fazer previsões, de apontar, quase como certezas absolutas os caminhos que a sociedade irá tomar e daí advém um quadro “infalível” do que irá acontecer economicamente. Divirto-me acompanhando esses exercícios de futurologia.
Dezembro de 2022. Uma compreensão extremamente negativa do que poderia acontecer.
Um novo governo entraria com um país dividido. As contas públicas estariam em frangalhos devido aos gastos irresponsáveis do período eleitoral. A inflação estouraria, principalmente no segundo semestre, dadas as benesses que foram feitas para tentar o que não conseguiram, ganhar a eleição. Como, por exemplo, nos preços dos combustíveis. Um ano em que nada avançaria muito. O quadro internacional apontava para a mesma direção de redução da taxa de crescimento, o que pioraria o problema.
Com esse quadro, não havia dúvida. O desemprego aberto continuaria na faixa dos dois dígitos e a economia brasileira, se crescesse muito, não passaria de um avanço de 0,78% do Produto Interno Bruto, diziam os adivinhos. A inflação seria preocupante não estando na faixa prevista pelas autoridades, ou seja, suplantaria os 6%. O emprego teria uma recuperação muito lenta.
Dezembro de 2023, os dados reais.
O desemprego que já esteve na faixa dos 14% refluiu para 7,6% da população economicamente ativa, quase metade. O crescimento do PIB deve ficar no entorno dos 3% ou um pouco mais. A inflação ficou bem comportada podendo fechar nos 4,3% de crescimento, e os juros da SELIC, mesmo abusivos, já caíram para 11,75%.
Bom lembrar que estamos enfrentando duas guerras a nível mundial e mesmo assim nossas exportações crescem consistentemente. Mais ainda, embora nosso principal mercado, a China, tenha um crescimento de apenas 5% quando em anos recentes se mantinha num patamar próximo aos 10%, mantivemos nossas contas externas com excelente desempenho.
Evidentemente que nossos futurólogos não se desculpam e apenas justificam suas posições com alguns dados conjunturais que dizem não poderiam ser previstos.
Entre eles que os preços das commodities subiram demais, que o consumo das famílias se avolumou, que o setor de serviços teve uma recuperação pós pandemia ou que a indústria conseguiu se estabilizar. Tudo verdade, mas será que foi algo que surgiu do nada ou que era totalmente imprevisível? Houve medidas internas que ajudaram a mudar esse panorama?
Vejo novas previsões para 2024. De instituições sérias como a Fundação Getúlio Vargas ou a Confederação Nacional da Indústria. Novamente, o mau humor e a descrença de uma retomada consistente de nossa economia. Embora o governo e suas instituições acreditem num crescimento de 2%, as análises não passam de um possível crescimento do PIB em um minguado 1,4% e de uma inflação que se estabilize nos 4, 2% de crescimento.
Começo a colocar em dúvida. Há mudanças estruturais em andamento.
Verdade que o embate com o Congresso nacional pode dificultar um maior crescimento e já dificultou. Mas, embora haja derrotas como a queda dos vetos do Marco Temporal e principalmente da Desoneração das folhas de pagamentos dos setores que mais empregam, vetos que podem cair no Supremo Tribunal Federal, há ganhos significativos. Passaram medidas que em muito fortalecem as finanças públicas e a busca de um déficit cada vez menor.
O novo arcabouço fiscal passa a ser importante. As reformas estruturais como a Tributária criam um clima de confiança. Lembrem que confiança é o principal fator para alicerçar as expectativas positivas. Não há mais a espada de Dâmocles que impedia o crescimento dos investimentos com o Teto de Gastos. Além disso, os juros tendem a cair e, por conseguinte, a atratividade dos investimentos produtivos aumenta.
Também, o consumo das famílias cresce com o Desenrola Brasil e sua expansão para faixas de renda um pouco superiores das iniciais, o que viabiliza uma reativação na economia com a renegociação das dívidas. Programas sociais e de transferência de renda, além de valorização do salário mínimo complementam um perfil muito importante de retomada de crescimento.
A desaceleração global parece ter chegado ao seu patamar máximo na Zona do Euro e não deve avançar muito na China. Os Estados Unidos dão sinais de estabilidade e recuperação de sua economia, o que não aponta para um crescimento de sua taxa de juros básica que deve estabilizar-se ou mesmo cair. Isso significa maior atratividade para investimentos em nosso país.
Segmentos do setor industrial passam a ter incentivos importantes no plano de Neo-industrialização. Há possibilidades concretas de atração de grandes grupos econômicos para as áreas da saúde, de serviços urbanos, da agricultura para alimentação, da bioeconomia, entre outros. Também, o novo Programa de Aceleração do Crescimento-PAC pode viabilizar a retomada de setores como a indústria de base e o de grandes obras estruturais.
Os compromissos internacionais assumidos na área do meio ambiente, inclusive com a transição energética, trarão investimentos de porte para setores como solar, eólica, hidrogênio verde, biomassa, entre outros. Sem falar dos investimentos estrangeiros que atraem, além de financiamentos vultosos, como contrapartidas das posições assumidas.
Em síntese, é factível recuperar o patamar de investimentos produtivos em relação ao PIB para níveis superiores aos 25%, hoje muito abaixo. E com isso ter uma perspectiva muito mais favorável do que a que está sendo divulgada pelas instituições. O emprego e a renda têm potencial para um crescimento significativo.
Sem ter bola de cristal, sou péssimo em predições, acredito que 2024 poderá ser ano favorável para a continuidade do desenvolvimento sustentado que se observou nestes 2023. Que errem de novo os especialistas.

* Abraham B. Sicsú, professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco)

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