Os que viram misoginia na sua fala são como a parábola dos sepulcros caiados, pela hipocrisia e pelo silêncio diante de, aí sim, coisas muito graves
* Luciano Correia
O mundo da política atual é assim: para a falta de fatos concretos, factóides. Foi isso que incendiou redes sociais, microfones de rádios e outros territórios da chamada vida pública sergipana na semana passada após uma fala do ex-prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisciquinho. Candidato ao governo do estado com incrível apoio popular, qualquer pedra encontrada pelos seus adversários é arremessada contra Valmir na esperança que se tornem petardos contra os números que dão a ele folgada liderança na corrida pelo governo.
Foi comovente ver a sanha de depoimentos condenatórios, desde os parlamentos a verdadeiras pregações midiáticas sob encomenda. Até de gente que até ontem fazia oposição vigorosa ao atual governo estadual. A declaração de Valmir respondia a um questionamento da imprensa, sobre sua disposição em lançar na política a própria mulher. A pergunta é mais do que cabível, porque esta tem sido a tradição da política brasileira e a nossa aqui da província.
Para a quase totalidade dos políticos, sejam de direita ou esquerda, não basta eles mesmos se representarem nos seus mandatos. Logo têm que abrir espaços, como um rei passando o cetro a um parente ou esposa, como se por herança hereditária. É uma tradição nefasta, porque não leva em conta talentos, liderança ou sensibilidade social.
Em Sergipe, esse velho costume é pródigo em exemplos: quase todos os políticos e governantes alçados a lugares privilegiados buscaram logo guardar uma cadeira para a mulher. Para isso, não precisa de mérito algum: se necessário, providencia-se, por exemplo, encomendando matérias elogiosas e discursos radiofônicos especializados na matéria. No nosso mercado, temos uma oferta variada desses serviços.
Mesmo que nefasto, esse costume é usado tranquilamente, sem constrangimentos, por toda a estirpe dos políticos sergipanos, dos velhos coronéis, dos coronéiszinhos, dos filhos que papai arranjaram mandatos para seus rebentos e outros quejandos. Tal prática, um acinte contra a democracia e a ética na política, é usada também pelas lideranças da esquerda. Num estado de baixa qualidade da opinião pública, ninguém se constrange de nada.
É aí que voltamos à declaração do ex-prefeito de Itabaiana. Questionado, num contexto muito claro em que o que estava em jogo era saber se Valmir também comunga dessa prática, ele foi incisivo: não, minha mulher não vai se meter em política! Ali estava claro, pelo tom de voz e pelo contexto em que se deu a fala, que era uma espécie de vacina que Valmir tomara para evitar a má tentação.
Mas não quiseram entender desse modo, por má fé ou pela simples prestação de serviço aos principais beneficiários, talvez por encomenda, talvez remunerada. Até quem não tinha nada a ver com o pato (eita!, com perdão do ato falho), quis mostrar serviço, mesmo sem credenciais para tal. Foi o caso de uma moça estridente, que no seu estilo histriônico de dizer nada com coisa nenhuma, usou uma tribuna pública para esbravejar.
Valmir não errou em nada. Pelo contrário, deveria ter sido parabenizado pela atitude. Os que viram misoginia na sua fala são como a parábola dos sepulcros caiados, pela hipocrisia e pelo silêncio diante de, aí sim, coisas muito graves. Por exemplo: quantos parentes com o sobrenome do atual governador ocupam gordos CCs na máquina estadual, nos níveis de parentesco que começam na própria casa? Se tiverem uma resposta que não seja imoral, avisem.
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS

