Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com
O Dia do Geógrafo, comemorado em 29 de maio no Brasil, representa mais do que uma homenagem profissional. A data simboliza o reconhecimento da Geografia como uma ciência estratégica para compreender a organização do espaço, os conflitos territoriais, as desigualdades regionais, as transformações ambientais e o desenvolvimento das sociedades.
A Geografia acompanha a humanidade desde as primeiras civilizações, mas consolidou-se como campo científico sobretudo a partir do século XIX, articulando conhecimentos naturais, econômicos, sociais, políticos e culturais. Ao longo do tempo, diversos geógrafos contribuíram para a formação do pensamento geográfico moderno e também para a construção das bases da geopolítica contemporânea.
Entre os principais nomes da Geografia mundial destaca-se Alexander von Humboldt, considerado um dos pais da Geografia moderna. Humboldt defendia a integração entre natureza e sociedade, observando as relações entre clima, vegetação, relevo e ocupação humana. Sua visão sistêmica influenciou profundamente os estudos ambientais e regionais. Outro nome central foi Carl Ritter, que compreendia a Geografia como ciência das relações entre os povos e os territórios. Ritter valorizava o papel do espaço na formação histórica das civilizações.
O meu ramo preferido da referida ciência é a Geografia política e a geopolítica que receberam forte influência de Friedrich Ratzel. Sua teoria do “espaço vital” afirmava que os Estados buscariam ampliar seus territórios para garantir sobrevivência econômica e política. Embora posteriormente apropriada de forma controversa por regimes expansionistas, suas ideias marcaram profundamente a geopolítica do século XX. No campo da geopolítica estratégica, destacam-se ainda Halford Mackinder, autor da teoria do Heartland, que apontava a Eurásia como centro estratégico do poder mundial, e Nicholas Spykman, formulador da teoria do Rimland, fundamental para a estratégia ocidental durante a Guerra Fria. E em minha opinião, os atuais conflitos mundiais possuem sintonia que as teses de Friedrich Ratzel, Halford Mackinder e Nicholas Spykman.
Também merece destaque Paul Vidal de La Blache, criador da corrente possibilista, segundo a qual a natureza oferece possibilidades, mas as sociedades escolhem como ocupar e transformar o espaço. Essa visão contrapôs o determinismo geográfico predominante na época. Já no campo crítico e humanista, David Harvey introduziu análises marxistas sobre urbanização, capitalismo e desigualdades espaciais, enquanto Yi-Fu Tuan aprofundou os estudos sobre percepção, lugar e experiência humana do espaço.
No Brasil, a Geografia adquiriu grande relevância na interpretação das desigualdades regionais, da urbanização, da ocupação territorial e do desenvolvimento econômico. Entre os maiores nomes da Geografia brasileira destaca-se Milton Santos, referência mundial da Geografia crítica. Sua obra analisou os efeitos da globalização, das redes técnicas, do meio técnico-científico-informacional e da urbanização desigual. Milton Santos defendia que o território é usado de forma seletiva pelo capital, gerando exclusões e assimetrias sociais.
Outro nome fundamental foi Aziz Ab’Sáber, responsável por importantes estudos sobre domínios morfoclimáticos do Brasil. Sua classificação dos biomas e paisagens brasileiras permanece essencial para o planejamento ambiental e territorial. Josué de Castro revolucionou os estudos sobre fome e pobreza regional com obras como Geografia da Fome. Demonstrou que a fome não era fenômeno natural, mas resultado de desigualdades econômicas e sociais. Também merecem destaque Manuel Correia de Andrade, importante intérprete da formação agrária nordestina, e Bertha Becker, referência nos estudos sobre Amazônia, fronteiras e integração territorial. O Nordeste brasileiro produziu importantes intelectuais da Geografia e das ciências regionais, como os já citados.
Em Sergipe, a Geografia possui papel importante na análise das dinâmicas urbanas, costeiras, agropecuárias e socioeconômicas do estado. O território sergipano, apesar de pequeno, apresenta grande diversidade espacial, envolvendo litoral, agreste e semiárido. Diversos pesquisadores vinculados à Universidade Federal de Sergipe contribuíram para os estudos sobre expansão urbana de Aracaju, impactos ambientais costeiros, agricultura familiar, bacias hidrográficas e desenvolvimento regional.
Entre os estudiosos ligados à interpretação territorial de Sergipe destacam-se pesquisadores como Felisbelo Freire, importante intérprete da formação territorial do estado, além de geógrafos e pesquisadores contemporâneos que analisam a urbanização, o meio rural, o litoral e os impactos socioambientais do desenvolvimento econômico sergipano. Irei citar o meu ex Professor José Alexandre Felizola Diniz, como referência, para homenagear os geógrafos sergipanos, pela sua trajetória de professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS), contribuindo para o surgimento do primeiro mestrado da UFS que foi em Geografia e para o primeiro Doutorado da UFS, que também foi em geografia.
A Geografia sergipana tem papel essencial na compreensão de temas como: expansão imobiliária do litoral; vulnerabilidade ambiental; transformações da agricultura; desenvolvimento do agronegócio; desigualdades urbanas; políticas públicas territoriais; recursos hídricos do semiárido e logística e integração regional.
Celebrar o Dia do Geógrafo é reconhecer a importância dos profissionais e pesquisadores que ajudam a interpretar o território e a sociedade. Em um mundo marcado por mudanças climáticas, desigualdades sociais, conflitos geopolíticos e rápidas transformações urbanas, a Geografia torna-se cada vez mais estratégica. Além disso, a contribuição dos grandes geógrafos mundiais, brasileiros, nordestinos e sergipanos demonstra que compreender o espaço é compreender também as relações de poder, desenvolvimento e cidadania. A Geografia, portanto, permanece como ciência fundamental para planejar o futuro, promover equilíbrio territorial e construir sociedades mais justas e sustentáveis.


