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Decorrente da utilização de novas representações cartográficas na projeção Equal Earth – Terra Igual. A África deixa de parecer próxima do tamanho da Groenlândia e passa a assumir a dimensão continental que efetivamente possui. A América do Sul também ganha maior presença visual.
E é justamente nesse ponto que o Brasil merece atenção especial. Pois a visualização demonstra que o Brasil parece um país ainda maior.
O Brasil possui aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, sendo o quinto maior país do planeta e ocupando grande parte da América do Sul. Por estar predominantemente em baixas latitudes, a distorção de área da projeção de Mercator não é tão extrema para o Brasil quanto para países localizados próximos aos polos. Ainda assim, quando observamos o conjunto do mapa-múndi, a comparação visual entre países e continentes pode modificar significativamente nossa percepção. Na representação baseada em áreas mais proporcionais, o Brasil aparece com maior coerência visual diante dos demais grandes territórios mundiais. E isso tem uma importância que ultrapassa a geografia escolar.
O Brasil possui dimensão territorial superior à de países como Estados Unidos, China, Índia e Austrália individualmente em diferentes comparações de extensão territorial, embora não seja o maior país do mundo. Seu território corresponde a uma parcela muito expressiva da América do Sul. A nova representação ajuda a compreender visualmente aquilo que os números já demonstravam, o fato de o Brasil ser um país continental.
O tamanho do território, portanto, não é apenas uma curiosidade cartográfica. É um componente estrutural da economia e da estratégia nacional e nesta perspectiva conhecer melhor a Terra muda nossa visão sobre o mundo e sobre o nosso território.
A evolução dos mapas acompanha a evolução da capacidade humana de conhecer o planeta. Cabe registrar que Ptolomeu trabalhou com informações disponíveis na Antiguidade. Mercator aperfeiçoou a representação em uma época marcada pelas grandes navegações. Peters questionou as distorções das áreas no século XX. Robinson procurou um equilíbrio entre diferentes deformações. E a Equal Earth representa uma etapa contemporânea desse processo.
Hoje dispomos de satélites, sistemas de posicionamento global, sensoriamento remoto, geoprocessamento, inteligência artificial e enormes bases de dados geoespaciais. Além disso, conhecemos a Terra com uma precisão que os antigos cartógrafos jamais poderiam imaginar.
Particularmente entendo que há uma dimensão importante nessa mudança, que é a educação. Milhões de crianças aprenderam a visualizar o mundo por meio de mapas nos quais territórios próximos aos polos aparecem exageradamente grandes. Durante décadas, a representação visual foi assimilada sem que necessariamente se explicasse que ela era resultado de uma projeção cartográfica. A consequência é que muitas pessoas desenvolvem uma percepção intuitiva equivocada sobre as dimensões relativas dos continentes.
A mudança para uma projeção equivalente, portanto, pode contribuir para uma alfabetização geográfica mais precisa. O estudante poderá compreender que a Rússia é gigantesca, mas que sua representação em Mercator exagera ainda mais sua dimensão visual; que a Groenlândia é extensa, mas está muito distante do tamanho da África; e que a América do Sul e a África possuem dimensões territoriais muito maiores do que muitas representações tradicionais fazem parecer.
Um mapa não muda o território; muda nossa percepção dele, portanto, é importante fazer uma distinção, pois o Brasil não ficou maior, a África não aumentou e a Groenlândia não diminuiu. O que mudou foi a forma de representar essas áreas. Essa distinção é essencial porque revela uma questão profunda sobre o nosso conhecimento do mundo que é mediado por representações.
Importante ressaltar que o mapa não é o território, o mapa é uma interpretação matemática, técnica e visual do território. E diferentes interpretações podem produzir diferentes percepções. A decisão da ONU, portanto, deve ser compreendida menos como a simples substituição de uma imagem por outra e mais como parte da evolução histórica da ciência cartográfica.
Durante muito tempo, a imagem mais difundida do planeta colocou visualmente grande parte do Hemisfério Norte em posição de destaque, enquanto territórios próximos ao Equador e ao Hemisfério Sul apareciam relativamente menores.
Uma representação baseada em áreas mais proporcionais contribui para uma percepção mais equilibrada da distribuição territorial do planeta. Isso é especialmente relevante em um mundo no qual África, América Latina e Ásia ganham crescente importância econômica, demográfica e estratégica.
Para o Brasil, essa transformação também é simbólica. O país deixa de ser visto apenas como uma grande nação da América do Sul e passa a ser percebido visualmente como aquilo que seus números demonstram, uma das maiores extensões territoriais do planeta, detentora de enorme diversidade ambiental, capacidade produtiva e importância geopolítica. A história dos mapas é a história da tentativa humana de compreender a Terra.
No final, a grande mudança não está apenas no papel ou na tela, está nos nossos olhos. Porque conhecer melhor a Terra também significa enxergar melhor o lugar que ocupamos nela.

