A ignorância empoderada 

Uma ferramenta política de dominação. (Reprdução)
* Andrei Albuquerque
Tachar alguém de ignorante costumava ter, no senso comum, a intenção de apontar a falta de instrução formal. No entanto, na era da opinião, a ignorância pode se passar – a depender da posição do sujeito – por uma forma de autenticidade; uma afirmação de liberdade; a possibilidade de gritar o próprio posicionamento social e político.
Para a psicanálise lacaniana, a ignorância é uma paixão, tanto quanto o amor e o ódio. Portanto, um afeto, a indisposição de conhecer o próprio inconsciente, o outro e o que o incomoda em uma realidade cada vez mais fugidia.
Desse modo, a ignorância não é a mera falta de escolaridade, mas uma recusa ativa e passional ao saber, a idiotia imodesta apontada em crônica por Nelson Rodrigues.
Em ano de eleições, o afeto da ignorância mostra-se uma ferramenta política poderosa. Sua circulação via fake news reforça medos e preconceitos, como vimos com o fantasma da “ideologia de gênero” em 2018. Embora a destruição das famílias tradicionais nunca tenha ocorrido, o termo virou um lugar-comum conservador diante da escassez de argumentos para criticar o que ignoram nos gêneros que estão além de uma lógica binária – no diapasão conservador haveria apenas homens e mulheres.
A bem da verdade – e a verdade anda bem combalida -, as “minorias” são rejeitadas com mais vigor quando o incômodo ultrapassa os estreitos limites estabelecidos pelo dominador. Isso vai desde a mulher que alcançou certa liberdade sexual e civil, à legitimidade dos transgêneros e aos imigrantes cujos corpos servem ao trabalho nos países ricos até o momento em que o seu aumento populacional é lido como uma indesejável “ameaça” que deve ser deportada, eliminada.
Historicamente, o discurso dos vencedores, dos exploradores, serviu-se da ignorância para moldar visões de mundo. Desconsiderar a humanidade alheia permitiu legitimar, sem culpa, os objetivos dos invasores sobre povos indígenas e em Gaza. Na política, a ignorância como mecanismo inviabiliza o debate e transforma o adversário em inimigo mortal, figadal. Basta notarmos que o furor fascista da atual extrema-direita encontrou nas redes sociais o palco ideal para a “lacração” contra a reputação de seus adversários, a desinformação e ridicularização do debate.
No livro “A ignorância: uma história global” (2025), o historiador Peter Burke fala em “agnotologia”, um estudo sobre a construção, produção e manutenção da ignorância por países, corporações, grupos políticos e sociais, vencedores e vencidos que visam a obter alguma vantagem ou domínio. Desse modo, a ignorância também é uma ferramenta política de dominação. Assim, é comum que o ignorante exerça um orgulhoso exercício de poder ao alçar sua convicção ao status de verdade irrefutável. Temos o exemplo do bolsonarismo que manipula o empoderamento da ignorância como um elemento essencial em seu projeto de poder.
Grosso modo, a ignorância resume-se em não querer saber sobre si, sobre o outro e sobre os fatos. Ela assola todos que se agarram a verdades definitivas, a discursos “universais”: do conservador que nega novas formações familiares ao progressista de esquerda que rotula todo evangélico de forma homogênea. Então, o que fazer contra a ignorância? Um caminho seria a admissão de um não-saber perante toda pretensão definitiva de conhecimento e sabedoria, pois quando damos consistência excessiva às nossas certezas, aos nossos semblantes, passamos a operar com a ignorância para obturar os furos em nosso saber que é, por estrutura, incompleto.
E o mais preocupante efeito político e social da ignorância é a dessensibilização em relação ao outro – uma decisiva erosão da empatia -, que resulta na recusa ao reconhecimento da diferença e na impossibilidade do debate. Em ano de eleições, muita barbaridade será dita nos palanques, nas ruas e postada nas redes sociais com convicção orgulhosa, indiferente aos efeitos das fake news.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS
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