* Andrei Albuquerque
Assisto ao filme “O agente secreto” de Kleber Mendonça Filho, ambientado no Recife de 1977, enquanto o Brasil ainda sufocava sob a ditadura militar.
Vivi a minha infância na primeira metade dos anos 80. Lembro como a miséria me parecia abundante. A violência esmagava sobretudo os mais pobres – a expressão “Brasil, um país do futuro”, do livro homônimo de Stepan Zweig, soava como um deboche diante do fracasso notório de um país que naufragava em inflação galopante, analfabetismo, grupos de extermínio e exclusão.
O filme de Kleber Mendonça Filho parece abrir mão de uma linearidade narrativa previsível para mostrar como várias formas de violência se manifestavam. Desde o personagem Armando/Marcelo, inventor e professor universitário perseguido por um empresário beneficiado pela ditatura; passando pela sobrinha de dona Sebastiana, vítima de feminicídio, e os gays supostamente atacados em praça pública, segundo a lenda urbana da “perna cabeluda” – que teria sido criada pela pena do jornalista e escritor Raimundo Carrero; culminando na violência policial e nos perseguidos pela ditadura militar.
A sensação que o filme busca imprimir é que a violência estatal seria algo que à época só podia ser sussurrado, segredado, em determinados grupos como no abrigo comandado por dona Sebastiana. Quem era alvo da ditadura e de seus tentáculos poderia sumir facilmente, ser secretado (expelido, eliminado) como um elemento indesejável. Chamou a minha atenção o delegado Euclides, um agente orgânico a serviço da violência estatal que em segredo secreta/elimina bandidos e banidos desovando os seus corpos também gozava atormentando o velho Hans, um judeu sobrevivente do holocausto, embora o enalteça por julgar que estava diante de um soldado nazista.
O Brasil não deixou de ser brutal contra os mais excluídos, basta não esquecer a última grande ação da polícia carioca em uma favela, onde todos seriam supostamente criminosos a ser eliminados. Porém, houve avanços em direitos e garantias individuais, antes inconcebíveis, além do fim da ditadura militar, claro. Evidente que encontraremos pessoas comuns que falariam o soporífero clichê que naquela época “se podia andar nas ruas” e que se um ladrão qualquer foi morto teria feito por merecer.
No começo da película, um corpo jaz em uma estrada que leva ao Recife, como um dejeto, uma secreção da violência inerente à estrutura social brasileira contra os pobres, os descartáveis aos olhos de um necropoder em suas diversas camadas, os excluídos sem direito à defesa e garantia de justiça. A trama deixa uma marca inquietante da violência em vários níveis: exclusão, injustiça, eliminação. No entanto, para quem ainda julga que somente guerrilheiros comunistas e subversivos foram perseguidos, torturados e mortos pela ditadura militar, convém assistir ao documentário intitulado “Cabra marcado para morrer”(1984) dirigido por Eduardo Coutinho. O filme expõe a perseguição e eliminação da liga camponesa e da sindicalização dos trabalhadores rurais no interior de Pernambuco, principalmente a partir de 1964 – o documentário retrata como lavradores analfabetos foram perseguidos, secretados, pelos usineiros e latifundiários com apoio dos militares que também apreenderam o material filmado em 1964 pela equipe do documentário que somente foi lançado 20 anos depois…
Na psicologia clínica, advertimos que segredar, “dizer em segredo”, manter em segredo, pode ser uma artimanha do ego/eu diante de um conteúdo inconsciente que julgue insuportável. Todavia, parece ser da natureza dos segredos que eles circulem, que apareçam de alguma forma, que traiam o sujeito por meio do corpo, pelos poros. E o inconsciente – esse lugar onde alguns julgam não haver uma lógica – insiste em secretar, expelir desejos e secreções pulsionais, pois se o desejo inconsciente pode circular na fala, nomeando diversos objetos e aparecer em atos, as secreções pulsionais talvez possam ser localizadas como marcas de repetição, que à revelia do sujeito, insistem em se fazer presente no que for mais incômodo: na repetição de relacionamentos tóxicos, de fracassos que estão para além de um controle racional. Aí, a fala, sob o dispositivo psicanalítico, pode reduzir a repetição mais incômoda barrando os riscos letais de determinados relacionamentos abusivos e até inventar um novo modo de gozar, de viver, do que é único em cada ser.
No plano da cultura, o Brasil parece começar a suportar o enfrentamento de seus fantasmas, de suas secreções purulentas em filmes, livros e debates. No entanto, a movimentação de um cinismo do “deixa disso” e de uma suposta pacificação hipócrita em relação aos crimes da ditadura não contribuem para uma elaboração do passado.
A violência, a injustiça social e a miséria enraizadas na história da nação brasileira ainda precisam ser digeridas, então que sejam ao menos secretadas no espaço público para que não permaneçam segredadas, sussurradas sob o medo e a opressão.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e escritor.


