* Andrei Albuquerque
A enxurrada de BETS, “bet” em inglês significa aposta, tornou-se ainda mais evidente durante a última copa do mundo e dificilmente haveria outro efeito ante o frenesi causado pelo mundial e o apelo constante ao consumo ainda mais infiltrado nos jogos e até mascarado sob uma mera “pausa para hidratação”. O endividamento gerado pelas apostas compulsivas de milhares de pessoas tem se configurado como problema grave de saúde mental que devasta indivíduos e famílias e que pode culminar com o suicídio em alguns casos. Assim, é possível que a dívida financeira gere a perda de um lugar no mundo, uma “saída de cena” para o sujeito endividado.
Não há o que romantizar em relação às dependências (adições), pois são um modo de gozar a vida que pode ser mortífero para o dependente e devastador para a família e quem estiver ao seu redor. A uma distância segura, o ébrio e o dependente químico apresentam algo de risível, de cômico, talvez por eles revelarem uma verdade incômoda acerca de nossa loucura cotidiana presa a discursos rígidos e ilusões que escamoteiam a morte e a incompletude da vida, todavia um modo de gozo mortífero trazido pela dependência é amargo para quem o carrega.
Trabalhei por quase quinze anos na posição de coordenador de um mesmo grupo de apoio (grupo terapêutico) para dependentes químicos, sobretudo alcoolistas, que eram empregados em uma empresa pública sergipana. Nesse grupo, acompanhei pessoas que conseguiram controlar o seu empuxo à destruição de maneira mais ou menos eficaz, no entanto havia os que ficavam pelo caminho – como infelizmente acontece. Contudo, os que conseguiram manter a abstinência a resguardavam com muito esforço a partir de um laço social produzido pelo grupo terapêutico, o A.A. (Alcoólicos Anônimos) e uma busca pessoal pela religião que chega a ter um papel fundamental para alguns dependentes, porém não é uma regra universal.
Quanto aos dependentes de jogo e compra compulsiva tive menor experiência de escuta analítica, porém por mais que ainda se tente responsabilizar o indivíduo pelo seu adoecimento, como se fosse uma espécie de fraqueza moral, uma falta de determinação ou falta de “ativação dos códigos de prosperidade”, a bem da verdade é que além de fatores da história pessoal do dependente, relacionados à sua constituição familiar e seus fantasmas, não podemos esquecer que há uma intensa estimulação ao consumo e ao enriquecimento como forma de realização mundana e espiritual constantemente presente em nosso laço social sob o molde do capitalismo digital.
Diante das dificuldades do sustento e das limitações da vida mediana, o sujeito aposta o seu aluguel, o seu salário, para saldar uma dívida, tentar “melhorar de vida” e não se sentir um fracassado como direta e indiretamente é espalhado pela mídia televisiva e nas redes sociais por influencers que vendem um sucesso incessante mesmo que aparente.
Também, vimos uma copa com pausa para hidratação como subterfúgio para mais propaganda e a taça sendo transportada em uma maleta da Louis Vuitton – enfim, se tudo pode ser comercializado, por que as ilusões não seriam exploradas a partir de um clique nas telas? Um shopping que funciona 24 horas e sem muros agora também é um cassino. Aqui, não podemos esquecer como artistas e influenciadores têm feito propaganda de BETS desde os progressistas, que abraçam os marginalizados como potenciais consumidores em programas nas tardes de domingo, até os mais reacionários em seus posicionamentos.
O vício em jogos de azar é antigo e talvez milenar como a embriaguez e o alcoolismo, no entanto não podemos fazer uma escuta que considere somente a dependência como uma disposição psíquica individual e que esqueça o contexto cultural em que estamos inseridos até o pescoço. Ademais, fazer frente à dependência química exige apoiar a tentativa singular do dependente de reduzir o seu empuxo à destrutividade pelo estabelecimento de outros laços sociais como os grupos terapêuticos, a religião, em suas diversas manifestações, e outras substituições que produzam algum sentido para o próprio dependente e não somente para agradar as demandas do Outro familiar e social.
A minha experiência clínica e institucional indicou que é mais incomum que o dependente restabeleça algum equilíbrio somente com medicação psiquiátrica e psicoterapia. Então, este fato apontou para mim que a dependência não é apenas responsabilidade do viciado e de sua família, mas que precisa da construção de laços e de um posicionamento que responsabilize a exploração capitalista das ilusões de sucesso, pertencimento e influência.
* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS.


