* Andrei Albuquerque
Logo que os sopros e batucadas anunciam a folia de Momo, os religiosos, sabichões, reacionários e demais saturninos detratores do Carnaval mostram a cara.
Há uma certa “ginje” classista e racista, uma aversão elitista à participação popular na folia. A alegria e contato com o povo incomodam tanto que atravessam qualquer festa com a “lógica do camarote”. Mesmo em meio ao povo, os reaças se julgam superiores e buscam se diferenciar do populacho pela cerveja que consomem, pelas fantasias ou abadás sobre a própria carcaça.
Sim, o hétero top compõe também a constelação elitista que escorre pelas ladeiras de Olinda, no cortejo do nosso Rasgadinho e em demais blocos e troças. Ainda é comum que seja um elemento criador de confusão, afeito a demonstrações improdutivas de virilidade e, sobretudo, assédio às mulheres. Trata-se de uma violência de gênero não episódica – vide os índices de feminicídio pavorosos observados no Brasil. Não há trégua.
Até pouco tempo, em casos envolvendo traição, os homens que matavam suas esposas alegavam a tese de legítima defesa da honra, considerada inconstitucional pelo STF apenas em 2023. Todavia, o ódio às mulheres segue ereto e pulsante no discurso de red pills, de alguns conservadores e de mulheres antifeministas, espalhado pelas redes sociais. A efervescência do Carnaval não os cala.
Para os grupos misóginos, a mulher deve ser obrigatoriamente submissa ao homem, como um objeto ao dispor das intempéries da masculinidade tóxica, atormentada por exigências de desempenho – desde a robotização pornográfica, em seus encontros amorosos, à exibição de virilidade.
Sob a armadura fantasiosa de força inabalável, o integrante da machosfera tende a revidar com agressividade a qualquer ataque à imagem que tem de sua performance. Ele sofre de uma dificuldade hercúlea para expressar afetos mais complexos.
A sexualidade não representa sempre um exercício simples para o ser humano, pois envolve uma pulsação corporal que subverte as advertências morais contra a masturbação, a mera reprodução biológica e a performance pornográfica. Desse modo, a sexualidade do hétero top (cisgênero) não passa incólume pelas trilhas de seu inconsciente, pois a qualquer momento um suposto controle fálico de sua performance pode ser abalado pela irrupção do desejo.
Ainda falta muito para que o hétero top se torne uma espécie de hétero divergente que acolha a discordância sem ficar sempre preso ao sacrifício de sustentar uma armadura fálica que limite os afetos e a convivência com amigos, familiares e mulheres. Fantasiar-se de mulher durante o Carnaval não é suficiente, todavia pode ser um começo.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS.


