Macho fera!

Insegurança, agressividade e tirania (Divulgação)
* Andrei Albuquerque
Sopra sobre nós uma sensação de involução, notável na escalada da ignorância empoderada. As redes sociais deram voz a incontáveis discursos reacionários contra a ciência e a mínima razoabilidade. Quem antes tinha dificuldade para compartilhar teorias conspiratórias, agora pode viver em comunidade com o seu “terraplanismo” cognitivo espraiado em reels e trends.
O documentário como “Por dentro da machosfera” (2026), disponível na Netflix, mostra como a ignorância contribui para sustentar a debilidade masculina diante do que é ser homem e de como agir com as mulheres.
Sim, os homens precisam ser ensinados a se relacionar. Porém, os que se arrogam o mérito de ensinar outros homens são figuras despreparadas, picaretas preocupados em lacrar e lucrar com a debilidade de jovens e adultos inseguros. Como não sabem lidar com mulheres nem compreender qual lugar ocupar no mundo, estes respondem com uma agressividade visível na explosão de casos de feminicídio.
Nesse documentário, vemos a maneira ultrajante como um pacote para transformar homens em supostos machos alfa é vendido por influencers para um público de homens ressentidos e desbussolados. Frente a um mundo mais plural quanto aos modos de ser, os influenciadores red pill pregam o retorno a uma rígida ordenação binária na relação entre homem e mulher. Assim, caberia ao homem um lugar de comando em que seria servido e pouco questionado. À mulher, uma posição submissa em uma espécie de performance de esposa tradicional.
A bolha misógina que produz o macho fera é sustentada por um imaginário ancorado na diferença biológica entre os sexos, como se ela fosse determinante para os gêneros e os seus papéis sociais na cultura.  Se há uma diferença biológica irredutível no corpo, isso não impede que um corpo seja fabricado pela história de cada sujeito em sua travessia pela existência.
O livro “Diferentes: o que os primatas nos ensinam sobre o gênero”(2023), do renomado primatologista Frans de Waal, aborda o que o ser humano – também um primata – tem de semelhante e diferente em relação aos chimpanzés e aos bonobos, revelando que a biologia também não é um fator definitivo na determinação dos papéis de macho e fêmea nesses grupos de primatas, nem em relação à dominância do bando ou às preferências sexuais – por exemplo, as fêmeas dos bonobos apresentam um protagonismo marcante quanto à escolha de parceiros e parceiras para o ato sexual.
As observações do autor lançam por terra o imaginário engessado dos papéis de gênero que busca no reino animal uma equivalência simplista e imprecisa como argumento para clamar pelo retorno de um conservadorismo de outrora que hoje desfila apenas como mais um modo de ser entre outros possíveis.
O termo macho alfa usado na primatologia foi vulgarizado por uma metáfora masculinista com o objetivo de designar um líder autoritário e dominante nos negócios, nas relações com as mulheres e com outros homens considerados mais fracos.
No entanto, esta é uma imagem diferente do que o pesquisador Frans de Waal observou em relação aos chimpanzés que estavam no topo da hierarquia do grupo, mas que não deixavam de ser protetores e generosos com os outros, pois, segundo o primatologista, a dominância ali não se sustentaria muito tempo somente pela agressividade e tirania.
O fato de o jovem adulto conservador almejar viver da mesma maneira que seu avô não pode ser um salvo-conduto para que se torne um macho fera entregue à livre prática de misoginia, transfobia e incitação ao ódio.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS.
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