Máscaras digitais

"Sorria, meu bem, sorria"(2019) por Alessandro Santana
* Andrei Albuquerque
À revelia dos nossos quereres, somos inconscientemente atravessados pela história familiar, pelo meio social, pelo Outro da linguagem que marca o nosso corpo com palavras, por vezes, as mais inusitadas. Assim, ficamos à mercê de repetir encontros e desencontros em nossa vida que raramente guardam uma clara explicação racional. Por exemplo, a pessoa imersa em uma série de relacionamentos tóxicos chega a uma análise devido à exaustão de tanto repeti-los, no entanto percebe que há outras camadas com as quais pode questionar a sua posição como sujeito diante do que acha que o Outro familiar e social espera dela. Dessa maneira, somos marcados pelo modo como absorvemos as demandas familiares e sociais sem que as percebamos conscientemente, por isso podemos procurar a análise para obter um saber sobre o lugar em que nos colocamos perante o nosso Outro e que pode ser bastante destrutivo.
As redes sociais permitiram que cada pessoa legitimasse e tornasse rentáveis os mínimos aspectos de sua identidade, desde um influencer que explica a rotina de sua doença crônica ao que busca reconhecimento, sucesso e dinheiro. Então, temos um vasto oceano de oportunidades de legitimação da identidade e do laço social, mas sem esquecer o lixo na mesma proporção. O narcisismo está presente como sinônimo de egoísmo, porém o narcisismo é primordialmente formador do eu e da identidade que o sujeito vai construir em relação ao seu Outro. O filme francês “O acidente de piano” (2025) revela de forma propositadamente bizarra e farsesca a rotina de uma fictícia influencer chamada Magalie Moreau – portadora de uma rara condição congênita que a impede de sentir dor física – que aos 14 anos havia começado a gravar vídeos curtos em situações em que se machucava para demonstrar que não sentia dor alguma. A película inicia-se com Magalie, uma influenciadora famosa e milionária apenas por fazer vídeos esdrúxulos que produzem machucados e mutilações em seu corpo com martelos, máquina de costurar, serra elétrica e atropelamentos ao modo do grotesco programa americano conhecido como Jackass exibido pela MTV. Chama a atenção que o nickname de Magalie, apelido nos chats e nas redes sociais, era algo como “Mega-tetas” escolhido por ela para reafirmar que tinha seios grandes; assim, os vídeos, sempre de 10 segundos, mostram Magalie e as suas mutilações agressivas que ainda mascaram uma erotização aparentemente paradoxal. Mesmo sem precisar, Magalie usa aparelhos dentários que já adulta lhe dão um ar de ninfeta provavelmente para continuar a atrair sobretudo homens como seguidores embora atraia muitas crianças e adolescentes. A objetificação do seu corpo é um fator atrativo e lucrativo como também era um elemento presente em muitas apresentadoras de programas infantis do Brasil nos anos 80 e 90 que pareciam ser manipuladas para captar o olhar desejante dos pais das criancinhas. E a agressividade não está longe de ter conexões com a sexualidade, ambas aparecem nas fantasias sexuais mais comuns, nos sacrifícios humanos da antiguidade, na violência de gênero e nos crimes dos serial killers. O filósofo francês Georges Bataile vai identificar a relação entre morte, agressividade e excitação sexual em seu livro “O erotismo” e na literatura o escritor japonês Yukio Mishima em obra autobiográfica “Confissões de uma máscara” revela a proximidade em suas fantasias entre sexualidade, violência e morte.
A rara condição implicou em uma falta improvável para Magalie: a vontade de sentir dor física como as outras pessoas sentiam! O que aparentemente poderia ser uma vantagem para ela era um traço que não a humanizava, pois afirma que não sentir dor seria semelhante a ser cega! No entanto, começa o seu primeiro vídeo aos 14 anos, no início da era da internet e antes das redes sociais, com o ato de testar o choque elétrico causado pela bateria do carro de seu pai que posteriormente assiste ao vídeo achando-o muito engraçado tanto que encaminhou para os seus amigos. Na satisfação pueril de seu pai, Magalie parece ter encontrado uma forma de captar o olhar e o reconhecimento do Outro, todavia ainda encontrou uma máscara e um gozo mortífero.
Magalie é famosa, solitária e altamente egoísta, infantil na vida adulta a ponto de ser minimamente cuidada por seu assistente. Questionada por uma jornalista sobre o porquê de continuar a gravar conteúdos bizarro após ter se tornado milionária, a influenciadora fica atônita, sem resposta, sem conseguir entender as razões de sua alienação àquele circuito. Neste momento, irrompe em lampejos um saber insuportável sobre si que apontaria para a possibilidade de não ser apenas por dinheiro, talvez para manter uma posição que continuamente fazia o Outro gozar e reconhecê-la sob um olhar fragmentado em bilhões de visualizações nas redes sociais ao longo dos anos.
O tragicômico em “O acidente de piano” revela o que está diluído em milhares de influenciadores que buscam dinheiro e reconhecimento utilizando quaisquer artifícios nas redes sociais. Então, se na película vemos um relato fictício e farsesco, nas redes sociais encontramos milhares de influenciadores que têm algo de uma Magalie embora não cheguem ao extremo como a personagem, contudo são subjugados por algoritmos e por sua história pessoal projetada nas telas.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS
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