* Andrei Albuquerque
A atual avalanche de marcadores de alta performance soterra desde as corridas de rua até a vida psíquica de cada sujeito que se enxerga como alguém em constante aprimoramento. Seguimos obcecados por rótulos, diagnósticos e o enquadramento em grupos e discursos que nos tragam alguma sensação de plenitude, mas que entregam apenas platitudes.
Próprio ao humano a busca por pertencimento contra o desemparo diante da vida e a angústia que gela o espinhaço, no entanto, essa empreitada por um lugar ao sol ficou reduzida a uma performance distante de uma transformação social, existencial e espiritual, perigosamente próxima de tudo que pode ser convertido em mercadoria. Somos “o povo da mercadoria” como nos chama o xamã yanomami Davi Kopenawa em seu livro “A queda do céu”, publicado em coautoria com o antropólogo francês Bruce Albert.
Aqui, lembro que Antônio Abujamra fazia ao final de seu programa “Provocações” uma das perguntas mais indigestas: “O que é a vida?”. Diante da indagação, o entrevistado tentava responder com embaraço ao que carece de reposta derradeira. Não há receita de bolo para a vida que escorre entre dias e horas, tampouco há uma existência que não tenha em algum momento “solado” como um bolo que passou do ponto. E inúmeros são os caminhos e os descaminhos e a inteireza projetada na vida alheia é, em grande medida, ilusória.
Assim, a vida do outro pode parecer completa a depender da perspectiva do observador e o dito “normal” não resiste incólume ao confronto com uma sessão de análise. No divã, sob a lupa das próprias indagações, cada sujeito se depara com as suas fantasias, o seu modo de gozar a vida sempre singular e que frequentemente subverte os marcadores de desempenho e o atual excesso de psicodiagnóstico que sobretudo tem pesado sobre as crianças e adolescentes. Ao puxar a sardinha para o lado da psicanálise, pode-se dizer que a escuta analítica recorta camadas e faz emergir conteúdos inconscientes que ficariam inauditos e misturados no bolo dos diagnósticos e do imperativo de aperfeiçoamento constante. Sim, ninguém se resume a um espectro autista muito menos a um diagnóstico de TDAH. As múltiplas camadas que implicam a família, a narrativa da história pessoal, o meio social e o discurso neoliberal de objetificação do sujeito como mercadoria não desaparecem apenas com uso exclusivo de medicação e práticas do coaching.
O espaço em jornal não permite maiores digressões, todavia o livro de Lea Ypi, “Livre: virando adulta no fim da história”(2022) oferece uma boa ilustração acerca de como a nossa “visão de mundo” e tendência ao um superficial maniqueísmo não dão conta da complexidade vida. A autora, professora de teoria política na London School of Economics, narra as suas memórias de infância e adolescência quando vivia sob o regime socialista que governou a Albânia, no sudeste da Europa, até a década de 1990. Ypi descreve as particularidades e privações daquele contexto, mas também formas de solidariedade cada vez mais rarefeitas. A posterior abertura econômica, longe de cumprir a promessa de emancipação plena associada ao ideário neoliberal, revelou-se igualmente atravessada por outras formas de precariedade e por uma inédita exploração trabalhista, social e subjetiva comandada por interesses de multinacionais. Agora, vemos um laço social no qual cada sujeito é convocado a ser um “empreendedor de si mesmo”, ao passo que um morador em situação de rua é capturado pela figura do fracassado – um loser – sintoma de uma importação acrítica do pior que há no discurso estadunidense.
A narrativa de Ypi macula a pretensão de que haveria um sistema capaz de resolver, de modo definitivo, as contradições da vida social e psíquica. Em outros termos, evidencia que a “visão de mundo” – qualquer Weltanschauung para retomar Freud – é sempre parcial e insuficiente como forma de explicar a política, as relações interpessoais e a vida.
Tal constatação nos reconduz ao ponto de partida: a incompletude é uma condição estrutural da nossa existência atravessada pela linguagem, por inúmeras palavras que escutamos e que nos marcam de modo singular. A contradição, longe de ser um ruído eliminável por uma “visão de mundo”, constitui o próprio tecido da experiência humana. E neste terreno movediço cada um tenta, à sua maneira, encontrar algum termo seja na oração, na luta politica, na resignação, inclusive com a possibilidade de findar como um cadáver altamente motivado no topo do Everest.
* Andrei Albuquerque, socólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS.


