Deus em conserva

A norma escancarada.(Divulgação)

* Andrei Albuquerque

A despeito das mais miraculosas teorias conspiratórias, a família tradicional nunca esteve ameaçada. Muito pelo contrário, tornou-se um objeto de valor a ser ostentado, além de álibi para hipócritas e canalhas.
A bem da verdade, o que incomoda a um farisaísmo conservador é a diversidade no formato das famílias que antes não encontravam legitimação social. Para os núcleos familiares fora do padrão heteronormativo restavam o julgamento moral e religioso, as franjas da sociedade e problemas jurídicos com pensões e heranças.
A ladainha conservadora – que versaria sobre uma suposta perseguição a uma organização familiar tradicional – soa tão coerente quanto o argumento de racismo reverso evocado pela branquitude que ignora os seus privilégios históricos.
Ecoa pelos templos um segmento da religiosidade cristã cativo de uma visão autoritária e narcísica do divino que instrumentaliza Deus para punir inimigos e recompensar materialmente a adoração e a fidelidade oportunista. Deslocam para o Criador anseios infantis de reconhecimento e gratificação ante o desamparo inerente à vivência humana. O Cristo da tolerância e do amor revolucionário perante os excluídos não tem reverberado em corações duros que se encontram sob a teologia do domínio. Todavia, não é de agora que as pessoas crucificam a Verdade e libertam Barrabás.
Em seu magistral romance “Os irmãos Karamázov”(1880), Dostoiévski, um fervoroso cristão da igreja ortodoxa russa, apresentou a alegoria do “Grande inquisidor” em que Ivan narra a Aliócha sobre a volta do Cristo no auge da Inquisição no século XVII em Sevilha, na Espanha. Novamente preso e interrogado por um novo Pilatos, o Messias reagiu a ele com um amor incompreensível para as limitações humanas. E na perspectiva de seu algoz, o povo não suportaria a liberdade fraterna de suas ideias transmitidas nos quatro evangelhos canônicos, mas sim almejaria o controle que a Igreja proporcionaria de modo semelhante a um pai severo que maneja a sua prole com violência física e psicológica, apesar de oferecer algumas migalhas de afeto e reconhecimento.
Em “Futuro de uma ilusão”(1927), Freud reconhece o papel que a religião tem de domar as pulsões junto à Cultura, mas que funcionaria como uma neurose coletiva. É indubitável que a religião se relaciona com a cultura. Na música, o canto gregoriano e Palestrina floresceram durante a Igreja medieval; o blues, o soul e o jazz têm conexões embrionárias com as igrejas dos negros estadunidenses; o samba tem suas raízes no Candomblé; e muitos cantores começaram a sua carreira nas igrejas evangélicas. No entanto, a religião, enquanto instituição, com seus dogmas, não deve ser confundida com a experiência mística individual de fé e de transcendência. Tanto que não basta estar em uma ordem franciscana para ascensionar do mesmo modo que o mestre de Assis.
As instituições religiosas têm o seu papel no laço social e na transmissão de valores que formam a cultura, contudo não garantem a transformação interior de ninguém embora sejam uma possível forma de “religação” com uma ideia de Deus.
O desafio de cada um pode ser como encontrar um acesso singular diante da capacidade providencial que a religião tem de injetar o seu sentido em qualquer mal-estar individual e social – Lacan apostava que a religião triunfaria sobre a ciência e a razão e até agora o bilhete tem sido premiado.
Segundo hagiografias (biografias dos santos) e relatos dos místicos, a experiência espiritual singular parece apontar para algum lugar além dos exercícios de poder e opressão nas relações, dos semblantes ilusórios de sucesso material e da procura narcísica por um Deus em conserva que seja espantosamente fiel a interesses mundanos.

* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social/UFS.

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