* Andrei Albuquerque
As pessoas deixaram de ficar com as faces avermelhadas, ruborizadas, corpos retraídos diante da exposição constante da sexualidade, confrontadas pelas “vergonhas alheias”, em revistas, programas televisivos, realitys e redes sociais. Alguma mudança sobre a manifestação da vergonha como afeto parece ter acontecido ao longo dos últimos 50 anos, portanto.
De fato, a vergonha encabulada de outrora não existe mais como laço social, o que não a impede de se manifestar na infinidade das experiências dos sujeitos. Nas redes sociais, por exemplo, a vergonha passou a significar a perda de likes.
Lembro que um famoso psiquiatra, um coach do Instagram, afirmava, em tom professoral, que vaidoso era quem não postava. Quem hesitava em postar algo para não parecer ridículo seria também arrogante. Assim, segundo o psiquiatra com barba de lenhador, vergonha seria não se colocar como produto.
As vergonhas à mostra não incomodam ao moralismo e ao pudor como antes, diferente do que pode ser a desonra na cultura japonesa. A vergonha mudou, enquanto uma espécie de sintoma social em nossa cultura, assim como a nudez, entendida como as vergonhas expostas para o colonizador português, porém considerada sob outra perspectiva para os povos ameríndios.
No romance Doutor Pasavento (2009), o escritor catalão Enrique Vila-Matas narra como o seu protagonista, também escritor, deseja desaparecer após sofrer duras perdas em sua vida pessoal. Porém, o processo de desaparecer em vida vai evidenciar uma maior afirmação do Eu, especialmente para o personagem, que havia se tornado escritor para “sobretudo ser fotografado”. A desonra seria não ser notado pelo Outro em vida ou em sua escolha narcísica de desaparecimento.
Na política, a extrema-direita buscou implodir o que a filósofa política Chantal Mouffe chamou de política adversarial, que consiste em ter adversários, talvez até desafetos figadais, mas que dialoguem como adversários que não almejam a aniquilação do opositor. Vimos como o ex-presidente Bolsonaro falava sem o menor traço de vergonha, com um deboche cruel e sem responsabilidade, sobre pessoas sem ar durante a pandemia de Covid-19, sobre minorias e afins. No entanto, os admiradores do ex-presidente achavam que o capitão era extremamente autêntico, pois falava sem as hesitações que julgavam próprias dos hipócritas do campo progressista e de parte da esquerda. O alvo era o que consideravam “politicamente correto”.
De fato, como a possibilidade de debate ficou bastante reduzida, a esquerda e parte da direita liberal fizeram esforço para que a política adversarial voltasse a respirar. Talvez a esquerda devesse aprender a não ter medo de se declarar e dizer a que veio – vide o prefeito de Nova Iorque Zohran Mamdani, eleito recentemente, socialista declarado.
O bolsonarismo colocou os preconceitos, inclusive os mais arraigados no coração do brasileiro, novamente em cena, só que sem a vergonha de outrora, tornou a ofensa desumana, a argumentação mirabolante e a destruição de reputações, por meio de fake news, em supostos atos de liberdade de expressão.
Em seu livro “Vergonha e política do afeto: uma contraexperiência”, lançado este ano, o psicanalista Sérgio Prudente empreende um rigoroso estudo sobre a vergonha como um afeto. Para o autor, houve um “esgarçamento da vergonha”, um rompimento dos limites da vergonha no laço social que também permitiu ao movimento bolsonarista a defesa orgulhosa da misoginia, do racismo, dos ataques a grupos LGBTQIA+, da tortura durante a ditadura militar, etc. O orgulho ficou destinado ao agressor e a vergonha coube à vítima, às minorias. Sem esquecer que as redes sociais possibilitaram ainda mais a morte da vergonha ruborizada, da vergonha de quem tropeça sozinho em uma rua, mas volta-se para procurar uma justificativa, uma pedra real ou imaginária. Dessa maneira, as redes seguem a lógica do capitalismo tardio cada vez mais controlado por Big techs em que os sujeitos têm seus dados capturados, minerados, para gerar lucro como produto na rede enganosamente gratuita.
Então, a vergonha do atual sujeito empreendedor de si mesmo, do “trabalhador em tempo integral” como Lacan previu nos anos 70, é a vergonha de não ser um produto, de não ser lembrado por likes como se fosse um conteúdo digital ambulante que produz dentro de um tempo em que até o ócio também é conteúdo a ser exposto – alguns influencers seriam enfim um gadget virtual que se oferecem para o gozo do seguidor. Confortável achar que estamos a salvo dessa lógica de exploração, mas não enquanto rolamos o feed para nos alimentar com pequenos e efêmeros objetos virtuais, com “dopamina barata”.
No entanto, não se trata de pedir o retorno de uma vergonha de outrora que por meio do pudor atormentava sujeitos e aparecia em seus corpos. A psicanálise aponta, pelo contrário, a dimensão da vergonha como responsabilidade ética do sujeito que se implica em seu desejo e nas consequências de seus atos, sendo também diferente da alienação do sujeito, conteúdo digital ambulante, que sente vergonha por não conquistar validação e dinheiro, quando não consegue forjar algum sucesso nas redes sociais.
Uma vergonha responsável pode fazer a diferença diante da exploração e da desumanidade.
* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS.


