* Andrei Albuquerque
O tempo que poderia ser dilatado nos derradeiros dias de dezembro segue comprimido sob o imperativo da produtividade constante, não poupa nem mesmo os momentos de confraternização e as celebrações natalinas. Acima, eu escreveria “deveria ser dilatado”. Todavia, caso o fizesse, estaria à procura de estabelecer uma ordem comum, universal, seria muito pouco psicanalítico, pois cada um enfrenta o tempo a sua maneira.
É possível que uma análise pessoal leve o analisante a desenvolver uma relação mais flexível com a temporalidade: as horas podem fugir um pouco das obrigações, das convenções, deitar em uma rede esticada em ganchos mais ou menos equidistantes, entre duas paredes, dois pilares, essa rede que é um patrimônio indígena, portanto decolonial.
Podemos apostar que a rede daria um fantástico divã! Fora o nosso deslumbramento estrangeiro, o trabalho etnográfico do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro sobre uma tribo amazônica denominada Araweté, identificou que esse povo tinha rituais, agricultura, casamentos e até uma troca consentida e admitida socialmente entre casais, um swing indígena. Os povos erroneamente tidos como primitivos também lidavam com os seus rituais, convenções e a sua própria temporalidade.
Nem toda rede leva ao descanso ou promove a preguiça tão condenada pelos paladinos da produtividade constante. As redes sociais são um prolongamento de nossa presença quase incessante onde obramos conteúdos e rolamos a tela alimentando o seu funcionamento e o enriquecimento das Big techs; olhamos e somos vistos e assim seguimos capturados de alguma maneira. Constantemente, encenamos ali, para o olhar do outro/Outro. O nosso narcisismo que se faz laço social também se perde no excesso de si, nas ilusões de se julgar muito empoderado e influenciar centenas ou milhares de seguidores.
De fato, muitas pessoas encontram nas redes um lugar no laço social a partir de suas características mais singulares, por exemplo ao compartilhar a sua rotina como portador de alguma necessidade especial ou alguém que explica de modo didático um tema específico e, por conseguinte, de alguma maneira ganha dinheiro com os seus seguidores. Desse modo, ao invés de demonizar a ferramenta, podemos tentar entrever algo do espírito que a anima, seu daimon no sentido grego e também para o wladimirianismo, a corrente filosófica sergipense criada no Aribé – uma espécie de quartier Latin da zona norte aracajuana, sem esquecer o Bugio.
Há muito lixo nas redes sociais, porém como seria possível qualquer atividade humana sem lixo e restos? Na rolagem maquinal do feed, encontramos red pills que impulsionam a misoginia e o feminicídio, empreendedores do abstrato – criadores de cursos que tratam sobre como vender cursos – que se orgulham de estar na praia lendo enquanto outras pessoas tomam sol ou bebem cerveja, crentes fiscais da vida alheia com rarefeito conhecimento sobre os ensinamentos do Cristo, empresários que se colocam como gurus com supostos ensinamentos sobre uma vida melhor e mais produtiva, influencers superficiais que fazem propaganda de bets entre outras inúmeras formas de ocupar e poluir as redes. Em relação a esse chorume virtual, mantenho o meu interesse psicanalítico como forma de tentar ler a sociedade que pouco deve ao que é ficcional em uma série como Black mirror e menos ainda ao tragicômico comum de “A mão de Deus” do diretor napolitano Paolo Sorrentino. Porém, o meu limite está entre o cansaço e a autopreservação. Então, é melhor tornar a frequentar uma rede: a que flutua entre duas paredes.
A análise permite inventar uma relação mais flexível com o tempo após a redução do imaginário, das identificações do Eu e das fantasias que nos prendem consciente e inconscientemente a performar o que achamos que o outro/Outro espera o tempo todo de nós. A depender, essa entidade não espera nada ou muito pouco do que supõe a nossa vã neura, pois também construímos obrigações mirabolantes, neuróticas em relação a nossa família, ao trabalho e ao que os outros supostamente pensam sobre nós.
A análise também permite um processo de decantação entre a neura de cada um e o que pertence à exploração capitalista, ao desgaste laboral e aos preconceitos arraigados na sociedade. Assim, o resultado desse processo pode ser uma forma de desalienação perante o Outro e as ilusões do mundo, pode produzir rasgos em nosso excesso de certezas, nas aparências/semblantes que nos capturam. O rasgo permite descortinar um pedaço do que antes estava encoberto e que talvez possa ser costurado de outro modo nem que seja com uma nesga, um retalho.
E o rasgo na rede pode nos forçar a levantar ou mudar de posição!
* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS.


