Lendo Lolita em Teerã

Na experiência de Azar Nafisi, a melhor literatura se opôs ao autoritarismo (Divulgação)
* Andrei Albuquerque
Imenso perigo julgar que o mundo não pode andar para trás, que um suposto progresso pode assegurar a cultura contra a barbárie e o autoritarismo. O filme “Lendo Lolita em Teerã”(2024), baseado em narrativa autobiográfica homônima da escritora iraniana Azar Nafisi, retrata como a literatura e o pensamento incomodam a uma ditadura.
No caso, a ditadura teocrática que se instalou no Irã a partir de 1979, também conhecida como revolução islâmica, fundando um Estado teocrático híbrido entre governo e religião. Assim, o que inicialmente parecia a derrubada da monarquia em prol de maior liberdade e participação popular findou em um governo autoritário a partir de uma leitura conservadora do islamismo que aos poucos foi se infiltrando na vida comum.
O filme retrata a trajetória de uma professora que volta a seu país em 1979, após concluir o seu doutorado em literatura inglesa, para ensinar na universidade em Teerã, capital do Irã. Logo começam os embates entre alunos que concordam com o recente regime e os que o criticam. Os que concordam pregam o banimento de livros que julgam moralmente indignos de serem lidos – sobretudo se lidos por mulheres.
Em poucos anos a revolução islâmica iria controlar as mulheres e estabelecer o uso obrigatório do véu (Hijab) em espaços públicos além de serem vigiadas pela “polícia da moralidade” que fiscalizava as ruas. O ambiente na universidade, onde a professora Nafisi trabalha, torna-se sufocante a ponto de ela desistir de lecionar e inventar um grupo de leitura com algumas alunas para estudar literatura em sua própria casa – o espaço privado era o único lugar livre para o debate realizado pela professora e as suas alunas. Para essas mulheres a literatura ficou como um modo de resistência ao autoritarismo.
Incomum é quem trilha o caminho da religiosidade respeitando de fato a diferença, acolhendo a alteridade. O mais ordinário, entre os caminhos da religiosidade, é o religioso que busca impor os seus dogmas de um modo universal como se isso fosse possível. Ordinário também é o incômodo do religioso com a sexualidade que associará ao demoníaco desde as mulheres que foram taxadas como bruxas pela Inquisição ao atual sujeito transgênero e as sexualidades que estão além de uma divisão heteronormativa.
O  corpo e as suas sensações que pulsam à revelia da moralidade conscienciosa, das convenções, e a subversão do desejo inconsciente se impõem como uma barreira ao religioso para que ele consiga mergulhar em um percurso singular pela experiência mística e assim viver a sua espiritualidade e a sua fé, que para ser vivida de modo único implicaria em de alguma maneira se aliviar do jugo aos dogmas, aceitando o que foge à regra e a incompletude do mundo sempre não-todo apreensível.
À psicanálise, determinado religioso pode trazer uma questão que o leve a indagar a confusão que faz entre os seus conflitos neuróticos e a sua religião. Então, até onde deslocaria o seu narcisismo moldando um Cristo autoritário que não condiz com aquele descrito pelo Novo Testamento com as suas lições de amor e tolerância?
Na narrativa autobiográfica da professora Nafisi, as mulheres logo sofrem com o autoritarismo que se instala em seu meio social e que vai reivindicar o controle sobre o seu pensamento e os seus corpos. As mulheres que rogam por um mundo mais conservador parecem recalcar o fato de que endurecer os costumes voltando aos tempos de suas vovós, para se tornarem uma tradwife (esposa tradicional), pode custar a liberdade de pensamento e comportamento. Isso não impede que escolham um estilo de vida conservador em suas vidas privadas sabendo o que pode advir, mas aí tiveram o direito de escolher, afinal liberdade seria a possibilidade de escolha encarando as consequências.
No Brasil, alguns cristãos católicos e evangélicos clamam por uma espécie de “Talibã tropical”, aspiração reacionária apoiada pelo bolsonarismo, como projeto de poder, de domínio, mantendo o risco à espreita, todavia como a professora Nafisi achamos que o mais extremo não vai acontecer. No entanto, a professora terminou deixando o Irã junto com a sua família e o regime dos aiatolás se perpetuou no poder.
* Andrei Albuquerque, Psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou 2 livros, artigos e textos em jornais
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