* Andrei Albuquerque
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Uma mulher foi agredida com sessenta e um murros, teve seu rosto desfigurado em trinta e seis segundos. Surpreendentemente, ela sobreviveu. Mas este poderia ser mais um caso de feminicídio.
O gênero da vítima e do agressor são reveladores. Talvez, ele, um provável pitbull hétero-top, não socasse um vizinho.
Se a agressividade é uma reação aos ataques à imagem narcísica, em determinados contextos da cultura ela parece se manifestar com menos freios. Não podemos, então, dissociar a estrutura psíquica de sua imersão na cultura e na família.
Parece ainda mais arraigado na cultura brasileira o fato de que uma mulher deve cuidar e entender um homem até as últimas consequências, desde o tipo hipo-agressivo chamado “filho de esposa” – que não sabe onde encontrar as suas cuecas – até o que mata por ciúmes após um término.
Um psicanalista pode se abster da obrigação de sempre emitir um diagnóstico acerca de todos os furúnculos do mal-estar da cultura. Contudo, fora do consultório, o psicanalista pode se posicionar contra o que oprime por meio de discursos massificantes que buscam trazer o passado como regra universal e também os que gritam pelo fim das diferenças, pois a diferença irredutível e o real insistem contra qualquer radicalismo que tende a ser limitante e militante.
Desde a sua invenção, a psicanálise se constrói por meio de um mosaico de diversos saberes tendo por característica o que seria uma espécie de “panfagia epistêmica” como postulou o wladimirianismo – uma corrente filosófica oriunda do Aribé. Por isso, a busca pela literatura, pela filosofia, pela antropologia e demais saberes, incluindo a sabedoria que circula pelas ruas, feiras e biroscas, como sugeriu Lacan em “O discurso de Roma”.
Os relacionamentos logo percebem a incompletude e o mal-entendido como presença após a euforia da paixão se apagar. Porém, alguns casais conseguem sustentar algo que os mantenha juntos fazendo um sintoma, uma sintonia mais ou menos estável, porque uma estabilidade derradeira seria mais fácil encontrar em concurso público.
Brigas, arengas e rusgas não significam a aniquilação literal do outro, ao menos simbolicamente se mata um pouquinho, porque amar não elimina o ódio, a raiva e outros afetos. As mulheres têm que lidar com a devastação sobre que o representa o feminino em suas mães e acerca do que é ser uma mulher em um mundo que ao longo de milênios as destinou a um papel de submissão ao homem e à ausência de direitos. Se hoje uma mulher pode escolher viver como as mulheres viviam há cem anos ainda assim deve agradecer à luta feminista o poder de escolha, exceto se morar no Afeganistão ou em outros Estados fundamentalistas.
Os homens estariam mais presos a uma performance do macho, prezando a ilusão de ser todo de alguma maneira. Assim, ficam confusos quanto a como podem lidar com o feminino nas mulheres e em si, esta confusão resultaria em agressividade como um elemento do psiquismo a ser somado ao contexto cultural em que a mulher seria um mero objeto.
A incapacidade de alguns machos elaborarem as suas emoções e afetos, que não podem perfazer um todo, encontra a descarga em uma violência que é fruto da falta de palavras que machuca corpos e mentes.
Em seu livro “Vergonha”(1997), publicado no Brasil em 2022, a escritora francesa Annie Ernaux conta como o episódio em que o pai tentou matar a mãe com uma foice de cortar lenha foi marcante para ela, ficou como uma cicatriz emocional, embora os pais tivessem seguido juntos sem novas tentativas ou ameaças. Todavia, a cena ficou inscrita em sua história, foi um divisor de águas em sua vida, aconteceu em 15 de junho de 1952. Então, Ernaux escreve: “(…) mãe dominadora, pai que aniquila sua própria submissão com um gesto mortal”. No entanto, esta seria uma conclusão que a escritora considera rudimentar diante do que chamou de “afundar na desgraça” aos doze anos.
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Um homem – que por não saber enfrentar a dominação da mulher – iria responder com um gesto mortal sem palavras, sem alguma elaboração sobre a situação, um ato de violência que tanto deixou a sua presença definitiva ali, como continua aparecendo em agressões contra as mulheres, em sessenta e um murros e desgraça.
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* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou 2 livros, artigos e textos em jornal.


