* Andrei Albuquerque
Uma sociedade obcecada pelo desempenho, que cobra resultados físicos e emocionais extrai dos sujeitos um dado precioso: o tempo.
Buscamos adiantar e reduzir desde o trajeto para se alcançar um objetivo até o tempo para se elaborar um luto diante de uma perda. O tempo que se julga perder pode ser um período lógico de elaboração essencial para se concluir um luto, para se iniciar uma mudança.
Assim, dissemos “lógico” em um sentido subjetivo que contraria a cronologia, a pressa das horas, dos dias, dos áudios e vídeos em velocidade 2x no WhatsApp, dos conteúdos viralizados em reels do Instagram. O sujeito empreendedor de si mesmo foi iludido a entender o tempo apenas como meio de aperfeiçoamento produtivo e competitivo.
Na infância, as crianças são cobradas a estar dentro de padrões, de marcadores de desenvolvimento considerados adequados para cada faixa etária. No entanto, aí se esquece que os caminhos podem ser tortuosos e surpreendentes também. Alguns pais sonham com crianças que não deem trabalho algum, porém o perigo pode residir justamente na ausência de descaminhos, do inusitado. Claro que a previsibilidade é um lugar seguro e fácil, porém muitas monstruosidades ficam encapuzadas sob a aparência de suposta normalidade, para isso basta que procuremos a biografia de determinado serial killer para exemplificar. Além da culpabilização excessiva das telas – em outros tempos havia a demonização da televisão – precisamos escutar a criança e quem ocupa o lugar parental, pois sempre é cômodo deslocar o problema para um objeto, um lobo mau monstruoso no imaginário – eleger culpados é uma forma reconfortante de não se implicar em uma situação, eximir-se da responsabilidade.
As telas devem ser supervisionadas pelos pais, porém toda demonização de um objeto pode ser uma fogueira para se esquecer um problema. Ademais, permanece um privilégio socioeconômico manter os filhos totalmente afastados das telas, pois um ideal de “zero telas” custa caro, então o que pode ser viável é a seleção de conteúdo e a destinação do tempo da criança para atividades além da tela. Além disso, uma dificuldade presente é o fato de os pais não se implicarem em seus pontos cegos e na admissão de que estão aprendendo a ser pais, que também são afetados pelo excesso de trabalho e pela pressão por desempenho, lembrando que Freud coloca o educar como uma das atividades impossíveis.
As fórmulas de educação garantem um roteiro, contudo os sujeitos tropeçam nele. Tropeçam com a sua história familiar, com os seus afetos, com que não foi dito – porque não há comunicação perfeita – e com o seu inconsciente. Os professores sentem o peso da pressão de educar a geração do desempenho, dos marcadores de desenvolvimento, imersa no barulho das redes sociais. Professores, psicólogos e terapeutas se tornaram destinatários do incômodo dos pais em relação aos filhos, pois se há 30 anos eram raros o diagnóstico, a escuta e tratamento do sofrimento psíquico infantil agora temos também o excesso de diagnóstico sem critério, a infância como alvo da indústria farmacêutica e de um mercado de terapias.
Os diagnósticos são necessários para a direção do tratamento e permitiram a inclusão de quem antes seria relegado a hospícios (instituições asilares que perderam a hospitalidade e acolhimento presentes no sentido da palavra em latim) e à ausência de laço social, mas precisamos escutar o sujeito e não pisar no tempo que ele precisa para se desenvolver e se analisar. Talvez, alguns jovens da geração atual sintam a pressão do capitalismo tardio e reajam questionando a autoridade, os empregos humilhantes, os padrões de consumo e os ideais de sucesso. Claro que outros têm vinte anos, mas procuram agir com seus os avôs e isso também é humano, pois a unanimidade é uma ilusão e burra como diria Nelson Rodrigues, ave rara de outra geração. Vovô vivia em uma sociedade disciplinar onde quase tudo era regido por uma ordem e uma temporalidade determinadas: emprego, casamento, aposentadoria eram mais estáveis e previsíveis, todavia os afetos eram mais sufocados, as revoltas e os adoecimentos terminavam por perfurar o silêncio – uma preocupação com “saúde mental” nem existia sequer enquanto discurso.
A psicanálise questiona a pressão por resultados quase imediatos que comprime o tempo da experiência diante das exigências de produção de conteúdos materiais, emocionais e digitais. Um dos diversos desafios atuais seria não esquecermos que um tempo lógico, subjetivo, deve ser considerado no desenvolvimento de uma criança, no tratamento e na vida de cada um.
* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou dois livros, artigos e textos em jornais.


